A Pedagogia do Copo Cheio

Um dos maiores desafios para nós humanos é o de aceitar, e de uma vez por todas, que cada pessoa é única. Não existe outra igual. Ponto!

Por isso, cada ser humano que se vai ou que se perde, é uma perda para todos.

Somos únicos, mas não vivemos só, necessitamos conviver com outros humanos, também únicos, porque precisamos uns dos outros. E só nos completamos e nos tornamos mais humanos, portanto melhores, no convívio com outros, os diferentes. Simples!

Portanto ser diferente é nossa marca registrada, identidade, digital, nosso DNA.

A diversidade é então nossa maior riqueza, nosso melhor patrimônio. É ela que dá sentido à Humanidade, esta parte ínfima do Cosmos, mas fundamental para a vida na Terra, nossa “Casa-Mãe”.

É isto que confere beleza e riqueza para toda a Humanidade, a possibilidade dos diferentes se completarem e se complementarem. A isto chama-se Educação, algo que só existe no plural e pressupõe troca e aprendizado entre diferentes, o eu e o outro, o eu e os outros, os outros e os outros.

Não sei precisar quando, mas no momento que alguém resolveu designar este “outro” não mais como diferente, mas tornando-o desigual por qualquer motivo (por ser criança, mulher, negro, analfabeto, feio, doente, periférico, rural, indígena, cigano, pobre …por ser judeu, muçulmano, sunita, xiita, não-ariano, homosexual, transexual, portador de doença mental, terceiromundista,”cucaracha”, “bóia-fria”,”candango”, “pau-de-arara”,  imigrante, subdesenvolvido, não-branco, não-cristão, não-europeu,  não-capitalista, etc) e por aí vão mais uma centena de palavras e expressões que se tornaram designadoras de fobias, hipocrisias e discriminatórias,  esta equação (1+1=3: o que sei + o que o outro sabe e + o que nós dois construímos e aprendemos) desandou completamente.

E a desigualdade e a discriminação dos “diferentes” naturalizou-se a tal ponto que foi oficializada, ao longo dos séculos, e incorporada na história de continentes e países. O absurdo virou norma, regra e lei, como aval de uma pseudociência social.  

Nós, latino-americanos e africanos fomos colonizados para aceitar o modelo branco, etnocêntrico, europeizante, monoteísta, capitalista e excludente. E depois, passamos a copiar e reproduzir, à moda da casa, os mesmos modelos discriminatórios e excludentes.

E nossa Humanidade passou a esvair-se e se medir na sua hipocrisia e insignificância.

E se hoje vivemos num país que parece querer tornar-se o “campeão mundial em desigualdade e discriminação” e outros absurdos, é muito graças a este desvio de conduta de nossa humanidade. E as consequências não param e são sempre mais desastrosas, porque este buraco não tem fundo.  

Como decorrência, nós fomos ensinados a olhar uma comunidade ou grupo social, como se olha um copo com água até pela metade. Daí podemos dizer que ele está ou meio cheio ou meio vazio. Seria o natural. Como cantavam Tião Carreiro e Pardinho: “o fim da metade é o começo do meio”.

Mas o pior é que fomos condicionados, na maioria das vezes, a nos focar no lado vazio do copo (ou da comunidade). No lado vazio habitam as “carências”, porque lá habitam os outros, os desiguais, os “diferentes”.

E passamos a classificar e nomear de “carentes” todos os outros que não se encaixam no modelo “oficial” (padrão, determinista, hegemônico) de vida (como se isso fosse possível): são os “jovens em situação de risco”, “populações marginais”, “incapazes”, ”crianças de rua”, “grupos vulneráveis”, “mulheres de rua”, “moradores das favelas”, etc…a partir deste olhar míope e enviesado pelo que nos fazem acreditar, pelas faltas (expectativa de vida, renda econômica, grau de instrução, projeção social). E para ficar mais demarcado, colocamos estes “carentes” distantes de nós, lá prás bandas das periferias, nos aglomerados, nas roças, nos cortiços, nos, nas selvas, nas favelas, nos quilombos, nas aldeias, nos becos e nas ruelas.

Pronto. Estavam atrelados todos os elementos para se configurar um novo paradigma: daí nasceu o IDH (índice de desenvolvimento humano) para medir o nível, o grau e o patamar de “carências” das populações “carentes” e, obviamente adjetivadas, pretas, pobres e periféricas. E essa junção de fobias, racismos, hipocrisias, preconceitos, isso tudo, sob o beneplácito das políticas sociais, dando legitimidade à desigualdade social e fornecendo aos formuladores e executores de políticas públicas governamentais a lógica para a elaboração de projetos ineficientes, ineficazes, quando não de cunho neofascistas.

Quando só se vê uma comunidade por seu “lado vazio”, toda solução, acredita-se, deverá vir de fora. Alguém para encher este copo. Por isso, quase todos os projetos sociais, desde a década de 70, têm o mesmo objetivo geral: “melhorar a qualidade de vida das populações carentes…da periferia, das favelas, do nordeste ou da Amazônia”. E tem gente que acredita que projetos desta natureza sejam até transformadores e resolvam alguma coisa. O máximo que conseguem, quando conseguem, são paliativos, reformismos, nunca transformação.

Esta é uma das lições que precisamos aprender definitivamente: políticas públicas e projetos sociais, baseados no IDH, no lado vazio do copo, não transformam nada, porque não levam em consideração o “outro”, o que ele sabe, o que ele faz e o que ele quer, porque ele é visto como “diferente, desigual e carente”. Quando muito são políticas e programas paliativos, temporários, residuais, assistencialistas, compensatórios que não são apropriados pelas pessoas, nem pela comunidade.

(Uma pergunta vem à tona: – Quem são os carentes mesmos, neste país? Alguém conhece uma comunidade em Brasília que vive e trabalha em volta da Praça dos Três Poderes? Existe algum lugar neste paÍs com mais carência de ética e de dignidade, de respeito ao dinheiro público e à Constituição? Este tipo de “carência” não conta, não interessa ao IDH.)

  Por isso, há mais de 30 anos fizemos a opção de, se formos atuar em qualquer comunidade, não importa onde, o faremos pelo “lado cheio do copo”. Este lado chamamos de IPDH – “índice de potencial de desenvolvimento humano” – onde residem fortalezas, os sonhos, os desejos não realizados, o esperançar, a resiliência, a energia e a ética. Aprender olhar e juntar toda a potencialidade do lado cheio do copo, que necessariamente não precisa estar completo, pois o que contém e resiste é 100% do potencial que precisamos para fazer as transformações necessárias.

Com a experiência de anos de aprendizagem em leitura densa e profunda do “outro”, diferenciando “piscadelas de piscadelas”, percebendo os pequenos nadas, pudemos sistematizar como estratégia de trabalho esta potencialidade.

Ela é formada pela capacidade que existe em toda e qualquer comunidade humana de Acolhimento, de Convivência, de Aprendizagem e de Oportunidade.  As iniciais destas palavras formam a palavra ACAO, expressão e palavra-síntese do trabalho a ser desenvolvido.

A partir do IPDH da comunidade, base territorial de uma Plataforma de Transformação Social, construímos as estratégias de AÇÃO – Acolhimento, Convivência, Aprendizagem e Oportunidade – essência do trabalho das equipes e times que atuam nos territórios: pessoas formadas e capacitadas para apreender o potencial, sistematizar as competências e desenvolver as ações necessárias.

O quadro abaixo apresenta esquematicamente o IPDH / ACAO:

Quadro do IPDH, onde mostra a esquematização do pensamento do potencial de desenvolvimento humano, através da palavra AÇÃO.

Olhar a comunidade não por suas carências, mas pela sua potencialidade, é construir um novo paradigma, desenvolver um novo jeito de olhar, pensar e atuar. Focar no lado luminoso, investir e maximizar os potenciais de “AÇÃO” é a nova estratégia, além de ser uma atitude absolutamente ética.

Aprender os “pontos luminosos”, juntá-los e transformá-los em “feixes de luz e fonte de calor”, deve ser sempre o compromisso profissional dos educadores e parte fundamental na estratégia de atuação de todas as lideranças e instituições comunitárias.

A pedagogia do Copo Cheio se soma às outras pedagogias  (da Roda, do Brinquedo, do Sabão e do Abraço) e às tecnologias sociais (PTA – plano de trabalho e avaliação, MPRA – monitoramento de processos e resultados da aprendizagem, IQPs – indicadores de qualidade de projetos sociais) para formar a base de sustentação político-metodológica dos projetos, programas e plataformas de Educação, Transformação Social, Desenvolvimento Local e Territorial. desenvolvidas pelo CPCD.

Tião Rocha

Idealizador do CPCD

Junho/2020

Publicações recentes

O CPCD é uma das 13 ONGs apoiadas pelo Burger King por meio do Movimento Arredondar, uma ONG que apoia outras ONGs coletando microdoações por meio do arredondamento de centavos do troco no varejo e no e-commerce.

Logo Arredondar e BurgueKing