A FÁBRICA DE ÁRVORES

Olhar para o rio que passa na comunidade pode ser o início de uma ação que levará, mais adiante, à conscientização do problema ambiental. Nesse sentido, o educador Tião Rocha, que desde os anos de 1980 está à frente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento(CPCD), tem um caso exemplar, que há três anos ele viu surgir em uma das rodas de conversa formada por crianças e jovens entre 10 e 17 anos em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha.

Era uma conversa sobre o passado da cidade (e a educadora exibiu aos alunos algumas fotos antigas da cidade), dentre elas uma que mostrava o rio Araçuaí, que corta a cidade, com gente nadando nele. “E as crianças diziam: Mas esse rio não existe! Não é o mesmo rio que passa na nossa porta, poluído, que quase não tem água. Daí a conversa derivou para o que seria preciso fazer para se recuperar o rio”, relata. E avança como a discussão foi encaminhada: “Bem, o melhor jeito é não poluir. Mas, e o que mais? Ah, também podia plantar árvores em volta das margens porque elas ajudam a proteger o rio, alguém disse. Certo, mas quantas árvores será preciso plantar? E que tipo de árvore?

Tião Rocha conta que, em seguida, o grupo descobriria que o melhor seria fazer uma geodésica para criarem mudas, e foi construída uma estrutura que permitia o desenvolvimento de 500 mudas por mês. “Só que, na roda seguinte, as crianças chamaram alguém que entendia do assunto, e este lhes disse: olha, se vocês querem recuperar as margens do rio, vão precisar de muito mais mudas! É briga de cachorro grande, vocês topam? Foram, então, calcular quantas árvores seriam necessárias para proteger o rio nos 64 quilômetros em que ele atravessa a cidade, para recompor a mata ciliar. São as duas margens, o que dava mais de 120 quilômetros: enfim, chegaram à conclusão que seria preciso em torno de 300 mil árvores. O passo seguinte foi descobrirem que era possível se fazer pelotas de sementes para acelerar o replantio, porque, só com a produção da geodésica, precisariam de mais de cem anos. Então, começaram a coletar sementes, fizeram teste com vários tipos para ver quais vingavam mais. E descobriram que a leucena, que é um arbusto leguminoso da região, brotava muito fácil e ajudava a incorporar matéria orgânica”, Conta o educador.

“Em outra roda de discussão, da qual eu participei também, diante da questão da quantidade de árvores que seria preciso plantar, uma criança disse assim: “A gente precisaria ter um fábrica para produzir tanta muda de árvore. Se existe fábrica de carro, porque não pode existir fábrica de árvore.”

Da pergunta da criança nasceria o Projeto Fábrica de Árvores Meninos de Araçuaí(Fama), que surgiu com metas ambiciosas, conta Tião: “Eles fizeram a seguinte conta: haviam 250 meninos no projeto; se cada um conseguisse fazer cem pelotas de sementes por dia, teríamos ao final de alguns meses mais de 1 milhão de pelotas de sementes. E as experiências comprovam que se você lançar essa quantidade de pelotas de sementes, no máximo 30% vai vingar, por conta da chuva, dos pássaros, etc. Com isso eles acabaram envolvendo outros meninos e meninas das escolas da cidade, para ajudarem nesse esforço de produção de sementes. Depois foram chamados para a Câmara Municipal de Araçuaí para apresentarem o projeto ao Conselho do Meio Ambiente da cidade”, relata Tião, com indisfarçável orgulho. E conclui: “o envolvimento com a questão socioambiental só aconteceu porque era algo concreto, e muito desafiador. Não era aquela discussão teórica de salvar o planeta, mas partiu da constatação do estado em que estava o rio e como eles gostariam que o rio estive daqui alguns anos.

Publicações recentes