Tião Rocha e Araçuaí Sustentável

Tião Rocha e Araçuaí Sustentável

Na semana passada estivemos em Araçuaí, no vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, visitando as iniciativas de desenvolvimento local introduzidas na região pelo educador Tião Rocha. Foi uma experiência incrível, muito emocionante e enriquecedora… enfim transformadora para nós!

Tentamos registrar aqui alguns aspectos do que vimos, ouvimos e sentimos nesses quatro dias na companhia do Tião Rocha. A intenção não é de resumir essas iniciativas (tarefa difícil), mas de instigar você a dar um pulo nesse local mágico que é hoje Araçuaí, decidindo por si mesmo o que essa experiência deve significar para a sua vida!

Da UTI Educacional à Cidade Sustentável

Tião Rocha costuma se apresentar assim: “Tião Rocha é meu nome, Sebastião é meu apelido, sou antropólogo por formação acadêmica, educador popular por opção política, folclorista por necessidade, mineiro por sorte e atleticano por sina.” Ele é o idealizador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), ONG criada em 1984 em Belo Horizonte.

Tião estudou História e Antropologia com o intuito de entender melhor a cultura popular brasileira, principalmente a de sua região natal. Seu descontentamento começou quando se deu conta de que, na escola, aprendemos muito pouco sobre a nossa cultura. Tião, que teve uma tia Rainha do Congado, nunca ouviu de seus professores sobre ela, ou sobre os rituais e festas populares que marcavam a sua vida fora da escola.

Num determinado momento, Tião percebeu que gostaria de ser um educador e não somente um professor. Afinal, são papeis diferentes. Segundo ele “professor é aquele que ensina e o educador é aquele que aprende”. Tião então deixou o seu cargo de professor universitário e foi trabalhar na região de Curvelo, por ser a cidade de seu grande inspirador: Guimarães Rosa.

Tião começou o seu trabalho em Curvelo, mobilizando a comunidade para combater a “morte cívica” das crianças. Tião deu esse nome ao fato de que ao final dos 8 anos no Ensino Fundamental, uma grande parte das crianças terminava o ciclo ainda analfabetas.

Nasce então, em 1984, o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD). A ONG começou a sistematizar métodos pedagógicos com a participação de diversos membros da comunidade, desenvolvendo atividades principalmente fora da escola. Eles descobriram assim que é possível fazer boa educação sem escola, mas não sem bons educadores. O primeiro projeto se chamou “Sementinha” e os encontros dos diferentes membros da comunidade aconteciam em qualquer lugar, nas casas das pessoas, na rua ou embaixo de um pé de manga… e assim é até os dias de hoje.

Tião contagia a todos com sua forte convicção “não podemos perder menino”. Para ajudar as crianças a passarem do nível de insuficiência para o de excelência em educação, Tião e sua equipe tiveram que entender a complexidade da realidade socioeconômica das comunidades onde trabalham. Assim, não se contentaram em ajudar os meninos que compareciam às rodas, mas a descobrirem porque muitos não compareciam. Onde estavam? No processo de entendimento dessa situação, surgiram outras necessidades, não só das crianças mas de suas famílias. Uma das constatações foi a necessidade de criar opções de desenvolvimento local para que as pessoas permaneçam em suas cidades ao invés de migrarem para os cortes de cana em São Paulo, por exemplo.

Tião conta ter aprendido em Moçambique que “para educar uma criança, é necessária toda uma aldeia”. Os conceitos foram então evoluindo, de UTI Educacional (para tirar os meninos da morte cívica) para Cidade Educadora e então para Cidade Sustentável. Surge assim o projeto Araçuaí Sustentável, o Arassussa, uma plataforma para convergência de tecnologias sociais e construção de cidades sustentáveis.

Glossário de um novo paradigma de educação e desenvolvimento

Nesta trajetória, surgiram conceitos que estão sendo desenvolvidos até hoje, alguns deles foram sistematizados como tecnologias sociais. Vamos apresentar aqui alguns exemplos, não seguindo uma ordem específica, pois todos são transversais nos diferentes aspectos do trabalho desenvolvido pelo Tião Rocha e sua equipe.

Em vez de começarem uma proposta com base em objetivos, optaram trabalhar com não-objetivos da educação, afim de evitar a reprodução dos erros da escola formal. Isto é, sabiam o que não mais queriam ao darem início às atividades com a comunidade.

A base de todo o trabalho é a Pedagogia da Roda, que explora a roda como um espaço equitável de trocas e aprendizagem entre os diversos membros da comunidade (educadores, crianças, pais, jovens, idosos).

É fundamental o “empodimento” (tradução brincalhona do inglês “Empowerment”) dos membros da comunidade para sua participação ao desenvolvimento local; as pessoas precisam perceber que podem fazer, que podem ousar, que têm o que oferecer para o bem de toda a comunidade. Essa é a base da apropriação das iniciativas pelos atores.

Para incentivar a criatividade e a participação de todos no processo de criação de soluções a questões concretas, usa-se o método de questionamento MDI: De quantas “maneiras diferentes e inovadoras” pode-se fazer alguma coisa? Ensinar português, por exemplo?

A Pedagogia do Brinquedo desenvolve jogos pedagógicos que respondem a dificuldades de aprendizagem específicas. A ideia fundamental é que se pode aprender brincando.

Ao perguntar a uma mulher da comunidade o que ela sabia fazer para ensinar às crianças, ela respondeu que só sabia fazer biscoito, biscoito “escrevido”. O Tião teve a grande sacada de aproveitar essa receita tradicional do biscoito de goma nas oficinas com as crianças para ajudá-las em seu processo de alfabetização. Surgiu então a Pedagogia do Biscoito.

Ainda sobre o processo de alfabetização das crianças, o Tião fala muito da “chuva de livros” através dos bornais de livros embaixo dos pés de manga, das casas… livros em toda parte. “Em uma cidade educadora as bibliotecas deveriam ficar abertas 24h por dia”, diz ele.

E por aí vai… a “Pedagogia do Sabão” partiu da ideia de que todo mundo tem algo a compartilhar com os membros da comunidade, em especial pequenas coisas úteis, como por exemplo, fazer sabão caseiro. A “Pedagogia do Abraço” relembra a importância da afetividade no processo de aprendizagem contínua. Já a “Pedagogia do Copo Cheio” é um engajamento com o otimismo em toda circunstância e o reconhecimento do potencial de cada um.

Ainda no âmbito educacional, Tião Rocha nos fala da importância das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), mas ressalta a necessidade de complementar o seu uso, com Tecnologias de Aprendizagem e Convivência (TAC).

Em oposição ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Tião Rocha fala do IPDH, “Índice do Potencial de Desenvolvimento Humano”, ligado à pedagogia do copo cheio, prevalecendo então o potencial de cada um dos membros da comunidade e não suas carências.

Enfim, quando o Tião é perguntado sobre como fazer para captar as necessidades das pessoas, ele responde “é diferenciando piscadela de piscadela. Isto é, é preciso ler o discurso escondido nas piscadelas do outro, prestar atenção ao outro, “aprender o outro”. Além disso, ele ressalta que devemos “perseguir o acontecido” (Guimarães Rosa), agir em função das circunstâncias, dos fatos concretos, da história da pessoa que temos diante de nós.

Transformações concretas

Esse novo paradigma de desenvolvimento local vem se concretizando em diversas iniciativas. Ao conhecer os projetos, é possível perceber que fazem parte de um processo sistêmico de desenvolvimento.

O Projeto Ser Criança reúne crianças até 15/16 anos da comunidade no contra-turno do horário escolar. Nele, as crianças se dividem em rodas, aprendem brincando através do bornal de jogos, aprendem as músicas e as danças populares resgatando a cultura local, fazem música, aprendem a tocar instrumentos musicais, aprendem e fazem arte, fazem rodas de leitura. Alguns educadores de hoje são da primeira turma do projeto, como a Clea e o Yuri. Ambos estão ali, ensinando o que aprenderam e se desenvolvendo como educadores.

Algumas crianças do Projeto Ser Criança, fazem parte do Coral Meninos de Araçuaí que já produziu imperdíveis musicais: Roda que rola; Pra Nhá Terra e Ser Minas Tão Gerais em parceria com o grupo Ponto de Partida e Milton Nascimento.

Quando as crianças atingem a idade máxima do Projeto Ser Criança, elas são convidadas a participar das “Fabriquetas”. Trata-se de oficinas de criação: marcenaria, serralheria, artesanato, costura, tintas de terra, software e cinema (Cinema Meninos de Araçuaí). Essas fabriquetas são reunidas em uma cooperativa chamada Dedo de Gente, da qual os jovens podem participar, inicialmente como bolsistas e depois como cooperados. Tião ressalta que eles são criadores de formas e não de produtos. Além do ofício específico, os jovens aprendem princípios de gestão, contabilidade e economia solidária. Quando uma das fabriquetas não tem lucro, uma parte do lucro das outras é distribuído para que todas possam se manter financeiramente.

Há 7 anos o Sítio Maravilha vem desenvolvendo experiências de permacultura na zona rural de Araçuaí. Este espaço foi construído segundo os princípios da permacultura e além de produzir alimentos orgânicos (que são distribuídos para as famílias dos participantes do Projeto Ser Criança), acolhe jovens e adultos interessados em aprender sobre permacultura. Esse espaço é cuidado com muito amor pelo Celso Souza, que tem muito prazer em receber pessoas para aprender como ele transformou esse local que até há pouco tempo estava em processo de desertificação. O Tião ressalta: “os médicos fazem residência médica, aqui as pessoas fazem residência social”. O Sítio Maravilha se estende às casas das famílias das comunidades rurais da região, que desenvolvem em seus quintais – agora Quintal Maravilha – os princípios ali desenvolvidos.

Outra iniciativa vinculada a questões socio-ambientais é o projeto Caminho das Águas, que visa ao reflorestamento das margens dos rios com árvores nativas, a captação da água das chuvas (construção de cisternas em propriedades privadas e lagos artificiais). Desse projeto participam, principalmente, as Mães Cuidadoras… mulheres que dão conta sozinhas de seus sítios na ausência de seus filhos e maridos que partiram para o corte de cana. Elas se reúnem e trabalham juntas, fazendo mutirão em seus quintais maravilha, trocando receitais tradicionais, ensinando outras mães a serem mães cuidadoras, cantando… aprendendo.

Aprendizagem contínua

Isso tudo que escrevemos é pouca coisa perto do que vimos, ouvimos e sentimos. Fica aqui algumas impressões e o desejo de que o Brasil e o mundo saiba mais sobre a transformação que já está acontecendo.

Ficamos impressionados com o forte envolvimento da população local nas diversas iniciativas e com a coerência da abordagem sistêmica adotada. Respeito, acolhimento, escuta, atenção ao outro, solidariedade, dignidade, valorização da cultura local estão por toda parte. Responde-se de maneira contundente às mais diversas questões do desenvolvimento local: educação cidadã e de qualidade, alimentação orgânica, oportunidades de trabalho para os jovens, economia solidária, conscientização ecológica, valorização da mulher, incentivo à cultura.

Algumas produções do Cinema Meninos de Araçuaí que deixaram a todos com nó na garganta.

Queremos agradecer ao Aerton Paiva e à Jaqueline da Gestão Origami que organizaram a nossa visita-formação em Araçuaí. Obrigado pelo convite, pelo acolhimento e pelas trocas!

Ao Tião Rocha pelos momentos emocionantes e valiosos que tivemos juntos, pelas prosas de manhã à noite cheias de ensinamentos e verdades que vão além do que pudemos “metabolizar” até o momento de escrever essas linhas. Obrigado pelo seu carinho, atenção, simplicidade, disponibilidade e prazer em compartilhar tanta sabedoria.

A *todos* da equipe do Tião que nos receberam com tanta alegria e carinho: Eliane, Luciana, Rodrigo, Celso, Carla, Paula, Yuri, Clea, Dona Emilia e Seu Antônio, Dona Marisete e Seu Narciso…

Aos meninos, mulheres e famílias de Araçuaí… que nos contagiaram com sorrisos e expressões de felicidade.

Obrigado a cada um dos companheiros do grupo, agora *Amigos dos Meninos*… pelas trocas, gargalhadas e pelo sentido que demos juntos a essa experiência.

Por favor comentem, complementem, sintam-se a vontade em se tornarem co-criadores desse espaço de reflexão. Afinal, segundo nosso querido Tião: “Não tem segredo, tem exercício!”

Fonte: Interação Consciente

Este post tem 3 comentários

  1. Sou professora da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro fiquei literalmente encantada e muito inspirada com as histórias que li neste artigo,gostaria de conhecer pessoalmente este lugar mágico pois sei que irei aprender muito e assim melhorar as minhas práticas educacionais.Espero em breve poder visitá-los.Parabéns pelo belo trabalho desenvolvido.Com afeto e boa vontade vocês estão provando que é possível transformar vidas.Um forte abraço a todos que participam deste maravilhoso e funcional projeto.

  2. Sou prefeito do Município de Brusque/SC, uma cidade com realidade bem distinta das cidades destacadas nesta matéria, mas fiquei encantado com esta forma bacana, democrática, revolucionária, proposta por Tião Rocha. Por isso, gostaria de obter o contato dele, a fim de possamos discutir a possibilidade da introdução deste método em nossa realidade. Aqui precisamos de uma escola mais redonda e menos quadrada, se é que me entendem. Agradeço o retorno.
    Paulo Roberto Eccel

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