EDUCADORES, SEMPRE!

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: -Me ajuda a olhar!

A este texto primoroso, o escritor uruguaio Eduardo Galeano denomina de “A função da arte/1”, publicado em seu “O Livro dos Abraços” (1989).

Poderia ser também, ao nosso ver, chamado de “A função do pai” ou “A função do educador”.

O educador não é aquele que ensina ao aluno como é o mundo, mas o que, junto com o aluno, leva-o a descobrir e a se apropriar do mundo que ele vê com os olhos, sente com o coração, deseja com a alma, constrói com a cabeça e as mãos, e sonha com os seus sonhos. Por isso, quando uma criança ou um aluno diz “me ajuda a olhar”, ela ou ele estão, não só reconhecendo a sua necessidade de ser ajudado a olhar e ver mais longe, mas, também homenageando seu educador, parceiro e amigo, reconhecendo nele o seu saber, sua coerência, sua amizade, sua parceria.

E se um educador escuta um “-me ajuda a olhar!”, seja através da fala, dos olhos, das mãos, do corpo, do sonho, do choro, da dor ou da alegria, ele deveria sempre responder com um “-me ensina o que você viu!” Pois só assim haverá uma verdadeira educação, isto é, uma relação plural e entre iguais, de cumplicidade, conluio, apaixonadamente verdadeira.

Esta é, segundo nosso entendimento e nossa prática, a única possibilidade de se construir uma relação efetiva entre professor-e-aluno. Educação é o outro nome que se dá a esta relação que só existe e teima em se realizar no plural. É impossível existir educação no singular. Nunca! Poderá haver outra coisa, instrução ou ensino, mas nunca educação.

E, se é alguma coisa plural, a função da família é ser, acima de tudo, assim como a escola também deve (e deveria) ser sempre, o “locus” privilegiado da prática educativa, onde pai-e-filho, assim como professor-e-aluno, sejam, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos desta construção. Uma relação entre pessoas diferentes – adultos e crianças – mas uma “relação entre iguais”, respeitosa, solidária, afetuosa e enriquecedora para ambos.

– Isto é possível? Claro que é!

Mas para que esta educação se realize em toda sua plenitude, é necessário que o professor tome a iniciativa de levar o aluno a “descobrir o mar”, a superar, juntos, as “dunas altas” e as “alturas de areia”. Porque, ao fazer isto, o educador estará re-descobrindo o mar através do olhar do aluno. E este descobrir/redescobrir o mar juntos, significa reinventá-lo, reciclá-lo, reapropriá-lo, renascê-lo. E, acreditamos que todo dia é dia de passar este mundo a limpo para que todos nós sejamos, diuturnamente, educadores e educandos do mistério e da mágica que é o viver.

Por outro lado, o “me ajuda a olhar!” tem significado, a cada dia que passa, o nosso compromisso de não deixar que nossa geração de herdeiros – filhos/alunos – vagueie perdida, abandonada e vitimizada por um mundo cada vez menos seu. Este pedido, se pode ser um abraço, também tem sido um sinal de alerta, um aviso, um tapa na cara.

Voltemos  a Eduardo Galeano, agora em sua “Celebração das contradições/2”: “…Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo” (in “O Livro dos Abraços”).

Por isso temos que ser sempre educadores, sejamos pais, filhos, professores, alunos, porque “cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios, outra razão.” (in “O Livro dos Abraços”)

– Me ajuda a olhar!?

-Me ensina o que você viu!?

(*) Meu nome é Tião Rocha, Sebastão é o apelido. Sou antropólogo (por formação acadêmica), educador (por opção política), folclorista (por necessidade), mineiro (por sorte) e atleticano (por sina). Idealizador e presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento – CPCD, organização não governamental e sem fins lucrativos, com 32 anos de existência, que tem como missão “ser uma instituição de aprendizagem permanente”.

 (**) Este texto foi elaborado para subsidiar as reflexões dos educadores – pessoas e instituições – parceiros e envolvidos nos diversos projetos do CPCD. Belo Horizonte (MG), Brasil.

(***) Nesta oportunidade, gostaria de oferecê-lo, como um presente, aos formandos, de 2016, no Curso de Artes Visuais, da Faculdade Estácio de Sá, de Grajaú, SP. A/C de Patrícia Silva.

 

Sejam Educadores, sempre!

 

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