É preciso dizer

Por: Aline Brandt* . Foto: Danilo Verpa

Fragmentos de um bate-papo com Tião Rocha

Para o educador e antropólogo Tião Rocha o atual modelo escolar aprisiona e já está dando sinais de falência… “A escola do futuro não existirá. É possível fazer educação de qualidade sem escola.”

Tião Rocha foi professor da Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto). Abandonou o emprego para fundar, em 1984, em Belo Horizonte (MG), o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento.

Tião Rocha iniciou, naquele ano, um projeto pedagógico onde a cultura local é utilizada como matéria-prima do ensino… Defendendo que a educação acontece em qualquer lugar… “E foi debaixo de um pé de manga que a pedagogia da roda começou. Em círculo as crianças discutem, avaliam e decidem a atividade do dia.”

“Há trinta anos eu me perguntava se era possível fazer educação sem escola… Debaixo de um pé de manga. Comprovamos que é possível sim fazer educação de qualidade em qualquer lugar. Mas o MEC (Ministério da Educação) continua produzindo cartilhas e distribuindo livros didáticos… E os professores continuam dando a mesma aula de sempre.”

“As escolas continuam com seis aulas de matemática e nenhuma de cidadania, solidariedade ou artes… Continuam com aulas de 50 minutos… Como se todo mundo aprendesse em 50 minutos… Essa imbecilidade está presente em pleno século vinte e um.”

“As escolas têm grades… Têm currículo. Podem ser comparadas a uma cadeia… Uma prisão. Em vez de serem espaço gerador de conhecimento aprisionam conteúdos… Determinam o que é preciso aprender. Se é para as crianças e os adolescentes serem felizes – gostarem do que estão fazendo – as escolas precisavam ter mais música, mais poesia, mais solidariedade e menos matemática, menos química… Estamos criando pessoas para serem bem-sucedidas profissionalmente… Mas será que estamos criando pessoas para serem felizes?”

Tião Rocha defende a necessidade de se valorizar a cultura popular no ambiente educacional… “Precisamos nos sentir parte integrante do território… Precisamos ter a certeza de que pertencemos a algum lugar… Que estamos ligados a esse lugar… A cultura popular e as tradições fazem a identidade das pessoas… Transformam indivíduos em pessoas. Quando não encontramos nosso lugar no mundo e não nos senti- mos parte de um todo tornamo-nos massa de manobra.”

A proposta de Tião Rocha, de uma educação mais livre, já atingiu mais de quinhentos educadores e vinte mil crianças. Foi levada a Moçambique e a Guiné Bissau. “Nós comprova- mos que é possível sim fazer educação de boa qualidade, em qualquer lugar, sem escola. Aprendemos, também, que só podemos fazer boa educação se tivermos bons educadores. Bons educadores são aqueles que geram processos permanentes de aprendizado e não repassadores de conteúdo.”

“O modelo atual da escola deixa a maioria para trás… Aproveita o mínimo e vai “informando” gente… Gente que não é crítica… Que não pensa… Que não age… Que não é bom cidadão.”

Segundo Tião Rocha: a escola, em breve, deverá ser substituída por espaços de aprendizagem… “Educação se faz com bons educadores. O modelo escolar arcaico “aprisiona” e há décadas dá sinais de falência. Não precisamos de sala. Precisamos de gente. Não precisamos de prédio. Precisamos de espaços de aprendizado. Não precisamos de livros. Precisamos ter todos os instrumentos possíveis que levem as crianças a aprenderem.”

* Mestre em história, jornalista e pesquisadora

Fonte: Jornal Correio Regional

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