Cinema e tecnologia impulsionam vidas

Por Junia Oliveira | Foto: Rodrigo Dai

Jovens de Araçuaí são capacitados por meio da sétima arte, produção de vídeos e oficina de softwares, ações oferecidas pela Cooperativa Dedo de Gente, braço do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento.

Sobre a cidade pairam o clima semiárido e a fama de pertencer a uma das regiões mais pobres de Minas Gerais. Em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, a seca e a falta de oportunidades marcam território e ensinam desde cedo aos sertanejos a ter nas veias o sangue desbravador. Movidos por esse sentimento e dando vazão às ações do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), jovens da cidade estão fazendo história e mostrando que os rumos de uma situação aparentemente sacramentada podem ser perfeitamente mudados. Assim, a distância das grandes metrópoles não é mais impedimento para saber sobre o mundo, pois ele está bem ali, ao alcance de todos, nos enredos mostrados na grande tela do cinema ou na linguagem da informática, entre sites e outras ferramentas virtuais que levam a passos nunca antes alcançados.

É em Araçuaí que está localizado o primeiro cinema 35 milímetros do Vale, com 105 lugares, um dos núcleos de produção da Cooperativa Dedo de Gente, braço do CPCD. Nele, a magia da sétima arte encanta muita gente que nunca teve oportunidade de se deixar levar pelos mistérios da telona. Mas a exibição de filmes é apenas uma parte do jogo, cujo objetivo é formar agentes de cultura. O cinema se tornou referência no município, localizado a 678 quilômetros de Belo Horizonte. E não é só diversão: ele é ponto de produção de vídeos e de geração de renda para monitores e aprendizes. Nas câmeras, eles mostram as riquezas da região e as histórias dos moradores.

Um dos cooperados, Gabriel Duarte Amaral, de 19 anos, começou a empreitada há pouco mais de um ano. Cinegrafista, ele passou recentemente a usar a câmera para contar histórias e fatos. Edição, áudio, spots e vinhetas se tornaram também parte de seu dia a dia profissional. Tudo é feito e pensado pelo grupo, que tem como clientes o próprio CPCD e empresas que procuram a turma do cinema para fazer comerciais. O jovem, que é natural de Conselheiro Lafaiete, na Região Central do estado, conta que a atividade significou uma verdadeira transformação em sua vida.

“Antes de conhecer o cinema, minha intenção era me formar e ir embora. Com ele, aprendi muito. Há gente de fora que vem para dar oficina, viajamos, conhecemos muitas pessoas, valorizamos o lado cultural da cidade, que poucas pessoas conhecem de verdade. Se um dia eu decidir sair, sei que estou mais maduro, com a cabeça formada”, relata.

Amadurecimento também para Paulo Rafael dos Santos, de 23, que usa outro tipo de tecnologia: a de softwares. Há quatro anos, quando a Dedo de Gente procurou nas escolas da cidade alunos interessados em integrar a Fabriqueta de softwares, ele traçou os rumos de sua vida. “Sempre gostei de informática, mas sabia o básico de computador”, conta o cooperado. Do básico para o domínio do desenvolvimento de sites, artes gráficas, livros digitais, diagramação e jogos. “Muda a nossa vida não só por aprender a mexer com computador, mas por nos ensinar a trabalhar, a conviver com outras pessoas. O site é o principal, mas por trás da tecnologia sempre há o lado humano, que vivemos muito mais que só mexendo com a máquina e fazendo site”, ressalta.

A educadora do CPCD Edilúcia Borges Luiz diz que a busca por conhecimento é constante, para acompanhar o ritmo das mudanças na informática. E mais: “Não é fazer por fazer, mas sempre buscando qualidade e o que se pode contribuir consigo mesmo e com o grupo. A equipe senta, planeja, discute e opina para o serviço ter um pouquinho de cada um”. Atualmente, o trabalho conta com 10 pessoas, das quais três cooperadas e sete aprendizes, que ficam meio turno na escola e o outro na fabriqueta. “Temos poucas oportunidades de trabalho em Araçuaí, a maioria dos homens vai para o corte de cana, fora daqui. É uma forma de os meninos desenvolverem outras habilidades e crescerem pessoalmente, além de ter a geração de renda. Hoje, eles são reconhecidos em toda a cidade”, diz Edilúcia. A fabriqueta e o cinema têm o patrocínio da Petrobras.

Fonte: Jornal Estado de Minas

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