Aula de cafuné
É possível ensinar nossas crianças de forma amorosa, diz o educador mineiro
texto Clarinha Glock
fotos Carol Da Riva
Educador
popular, antropólogo e folclorista, Tião Rocha fundou o Centro Popular
de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) por indignação e teimosia. Essa ONG
foi parida em 1984, em Belo Horizonte, em meio à miséria, à dor, ao
abandono e à esperança. Na ocasião, Rocha começou se perguntando se era
possível fazer educação embaixo de pé de manga. Não só foi possível
como ele e sua equipe transformaram cafuné, abraço e sabão em pedagogia
e políticas públicas. Os projetos do CPCD estão em mais de 20 cidades
brasileiras e em três países (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau).
“Aprendi em Moçambique que para educar uma criança é preciso toda uma
aldeia. Se a comunidade assumir a responsabilidade por suas crianças,
não vai haver mais criança analfabeta neste país. Isso não é uma
política de governo, nem de Terceiro Setor, é uma questão ética. E como
se mobiliza a aldeia? Juntando o que as pessoas têm de melhor e
disponibilizando”, diz Rocha. Como unir simplicidade e modernidade na escola?
Educação só acontece no plural, porque estão envolvidas, no mínimo,
duas pessoas. Se houver uma máquina no meio, qualquer que seja, como um
computador, que favoreça, tudo bem. Mas, se isso tiver o caráter de
substituir pessoas, pode até ter aprendizagem, mas falar que há
educação é outra história. A sofisticação se dá na relação entre as
pessoas: você senta numa roda e estabelece entre elas processos de
troca. É uma relação de construção. Livros, cadernos e equipamentos têm
que entrar para se somar a esse projeto de pessoas. Se houver isso,
ótimo, ajuda. Se não houver, não significa que se vai deixar de fazer.
Como você diferencia educação de escolarização?Escola
é meio. Educação é fim. Há escolas muito bem equipadas que têm uma
educação medíocre do ponto de vista da formação dos seres humanos. A
gente observa, nos grandes centros, escolas bem montadas, mas que
parecem uma cadeia, cercadas de grades, cheias de câmeras para
policiar. Comprovamos há 25 anos que é possível fazer educação de boa
qualidade debaixo de pé de manga, recuperando o sentido da educação
como prática humana. Trabalho no interior de Minas Gerais, onde as
pessoas vivem em condições subumanas e aonde a tecnologia ainda não
chegou. O fato de passar um canal lá de televisão não significa que
houve mudanças efetivas. Houve informação, mas não transformação em
conhecimento.
Vocês usam a pedagogia da roda. Como ela funciona?A
roda é um lugar da ação e da reflexão, do ouvir e do aprender com o
outro. Todos são educadores, porque estão preocupados com a
aprendizagem. É uma construção coletiva. Na roda você constrói
consensos. Porque todo processo eletivo é um processo de exclusão, e
tudo que exclui não é educativo. Uma escola que seleciona não educa,
porque excluiu alguns. A melhor pedagogia é aquela que leva todos os
meninos a aprenderem. E todos podem aprender, só que cada um no seu
ritmo, não podemos uniformizar.
Nos seus projetos também foi adotada a pedagogia do brinquedo. De que se trata?A
pedagogia do brinquedo veio responder a uma pergunta: será possível ter
uma escola formal boa e prazerosa? Será que os meninos podem aprender
brincando, ou a escola tem que ser um serviço militar aos 7 anos? É a
idéia de transformar o brinquedo em instrumento de aprendizagem.
Percebemos que eles podem aprender tudo, desde se alfabetizar até
história, física, química, matemática, e também cidadania, ética,
solidariedade, sexualidade.
De que forma esse processo pode ser multiplicado?Foi
em cima disso que comecei a trabalhar com meninos de 7 a 14 anos. Todo
início de ano, faço com eles uma aposta de que tudo que vou fazer vai
ser na base do brinquedo, da brincadeira. Há 20 e tantos anos, um
garoto chegou para mim e disse: “Ah, legal, mas cadê os brinquedos?” Eu
falei: “É verdade, não tem nenhum. Mas vamos fazer uma aposta? No dia
em que não soubermos mais inventar os próprios brinquedos eu começo a
comprar. Topa?” E toparam. Claro que ganhei. Isso é a pedagogia do
sabão: aproveitar os recursos que tem e transformar em utilidade
econômica, social, doméstica e também pedagógica. Com isso, você vai
gerando uma série de processos. São exercícios de aprendizagem.
Você fala em pedagogia do abraço. Como funciona?A
pedagogia do abraço é uma forma de trabalhar com grupos marginalizados,
não por carências nem pelo IDH, mas pelas potencialidades. Trabalhamos
com o IPDH: Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano. Começamos a
falar em cafuné pedagógico. Só sabe que é bom cafuné aquele que já o
recebeu uma vez na vida. Então tivemos que fazer cafuné pedagógico, que
é possibilitar que o outro invista no lado luminoso dele, capaz de
surpreender e de gerar. Isso também começou em uma brincadeira com
meninos na periferia. A minha brincadeira era dizer: só vou dar um
abraço apertado, daqueles de quebrar costela, se você estiver com o
cabelo penteado, ou de batom, cheirosa. Senão, comigo vai ser
distância, na ponta do dedinho. Um jogo. Só que isso fez com que a
meninada levasse a sério. Nós percebemos na comunidade e na escola a
demanda dessas pessoas que querem ser cuidadas, que querem se gostar.
Percebemos que o afeto, o abraço, o cafuné pedagógico favoreciam as
pessoas a sentir mais orgulho de si. E as ajudavam a sair da linha de
baixo, do desprezo, para a de cima, da auto-estima. É difícil convencer os governos a investir nesses projetos?
É difícil demais. Imagine que a maioria dos órgãos públicos trabalha
com rubricas financeiras e não em cima de plataformas, bandeiras e
causas. A educação é transformada em números. A escola, que foi o
aparelho ideológico do estado na época da ditadura, virou aparelho
ideológico do mercado. Você tem que formar gente para atender à demanda
do mercado. Há escolas em que o importante é formar, empurrar para a
frente, não importa o tanto de alunos que deixou para trás. Isso retira
o poder de pessoas. São jogos políticos, não de solidariedade. O grande
problema da escola atual é que é cômodo ficar dentro de uma forma que
existe há 500 anos. Ela ainda trabalha com conteúdos absolutamente
equivocados. Os meninos têm que passar por sessões de tortura, com
informações sem a mínima importância. Perde-se um tempo danado.
Conheça mais sobre o trabalho de Tião Rocha no Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento:
http://www.cpcd.org.br
Educador
popular, antropólogo e folclorista, Tião Rocha fundou o Centro Popular
de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) por indignação e teimosia. Essa ONG
foi parida em 1984, em Belo Horizonte, em meio à miséria, à dor, ao
abandono e à esperança. Na ocasião, Rocha começou se perguntando se era
possível fazer educação embaixo de pé de manga. Não só foi possível
como ele e sua equipe transformaram cafuné, abraço e sabão em pedagogia
e políticas públicas. Os projetos do CPCD estão em mais de 20 cidades
brasileiras e em três países (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau).
“Aprendi em Moçambique que para educar uma criança é preciso toda uma
aldeia. Se a comunidade assumir a responsabilidade por suas crianças,
não vai haver mais criança analfabeta neste país. Isso não é uma
política de governo, nem de Terceiro Setor, é uma questão ética. E como
se mobiliza a aldeia? Juntando o que as pessoas têm de melhor e
disponibilizando”, diz Rocha. Como unir simplicidade e modernidade na escola?
Educação só acontece no plural, porque estão envolvidas, no mínimo,
duas pessoas. Se houver uma máquina no meio, qualquer que seja, como um
computador, que favoreça, tudo bem. Mas, se isso tiver o caráter de
substituir pessoas, pode até ter aprendizagem, mas falar que há
educação é outra história. A sofisticação se dá na relação entre as
pessoas: você senta numa roda e estabelece entre elas processos de
troca. É uma relação de construção. Livros, cadernos e equipamentos têm
que entrar para se somar a esse projeto de pessoas. Se houver isso,
ótimo, ajuda. Se não houver, não significa que se vai deixar de fazer.
Como você diferencia educação de escolarização?Escola
é meio. Educação é fim. Há escolas muito bem equipadas que têm uma
educação medíocre do ponto de vista da formação dos seres humanos. A
gente observa, nos grandes centros, escolas bem montadas, mas que
parecem uma cadeia, cercadas de grades, cheias de câmeras para
policiar. Comprovamos há 25 anos que é possível fazer educação de boa
qualidade debaixo de pé de manga, recuperando o sentido da educação
como prática humana. Trabalho no interior de Minas Gerais, onde as
pessoas vivem em condições subumanas e aonde a tecnologia ainda não
chegou. O fato de passar um canal lá de televisão não significa que
houve mudanças efetivas. Houve informação, mas não transformação em
conhecimento.
Vocês usam a pedagogia da roda. Como ela funciona?A
roda é um lugar da ação e da reflexão, do ouvir e do aprender com o
outro. Todos são educadores, porque estão preocupados com a
aprendizagem. É uma construção coletiva. Na roda você constrói
consensos. Porque todo processo eletivo é um processo de exclusão, e
tudo que exclui não é educativo. Uma escola que seleciona não educa,
porque excluiu alguns. A melhor pedagogia é aquela que leva todos os
meninos a aprenderem. E todos podem aprender, só que cada um no seu
ritmo, não podemos uniformizar.
Nos seus projetos também foi adotada a pedagogia do brinquedo. De que se trata?A
pedagogia do brinquedo veio responder a uma pergunta: será possível ter
uma escola formal boa e prazerosa? Será que os meninos podem aprender
brincando, ou a escola tem que ser um serviço militar aos 7 anos? É a
idéia de transformar o brinquedo em instrumento de aprendizagem.
Percebemos que eles podem aprender tudo, desde se alfabetizar até
história, física, química, matemática, e também cidadania, ética,
solidariedade, sexualidade.
De que forma esse processo pode ser multiplicado?Foi
em cima disso que comecei a trabalhar com meninos de 7 a 14 anos. Todo
início de ano, faço com eles uma aposta de que tudo que vou fazer vai
ser na base do brinquedo, da brincadeira. Há 20 e tantos anos, um
garoto chegou para mim e disse: “Ah, legal, mas cadê os brinquedos?” Eu
falei: “É verdade, não tem nenhum. Mas vamos fazer uma aposta? No dia
em que não soubermos mais inventar os próprios brinquedos eu começo a
comprar. Topa?” E toparam. Claro que ganhei. Isso é a pedagogia do
sabão: aproveitar os recursos que tem e transformar em utilidade
econômica, social, doméstica e também pedagógica. Com isso, você vai
gerando uma série de processos. São exercícios de aprendizagem.
Você fala em pedagogia do abraço. Como funciona?A
pedagogia do abraço é uma forma de trabalhar com grupos marginalizados,
não por carências nem pelo IDH, mas pelas potencialidades. Trabalhamos
com o IPDH: Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano. Começamos a
falar em cafuné pedagógico. Só sabe que é bom cafuné aquele que já o
recebeu uma vez na vida. Então tivemos que fazer cafuné pedagógico, que
é possibilitar que o outro invista no lado luminoso dele, capaz de
surpreender e de gerar. Isso também começou em uma brincadeira com
meninos na periferia. A minha brincadeira era dizer: só vou dar um
abraço apertado, daqueles de quebrar costela, se você estiver com o
cabelo penteado, ou de batom, cheirosa. Senão, comigo vai ser
distância, na ponta do dedinho. Um jogo. Só que isso fez com que a
meninada levasse a sério. Nós percebemos na comunidade e na escola a
demanda dessas pessoas que querem ser cuidadas, que querem se gostar.
Percebemos que o afeto, o abraço, o cafuné pedagógico favoreciam as
pessoas a sentir mais orgulho de si. E as ajudavam a sair da linha de
baixo, do desprezo, para a de cima, da auto-estima. É difícil convencer os governos a investir nesses projetos?
É difícil demais. Imagine que a maioria dos órgãos públicos trabalha
com rubricas financeiras e não em cima de plataformas, bandeiras e
causas. A educação é transformada em números. A escola, que foi o
aparelho ideológico do estado na época da ditadura, virou aparelho
ideológico do mercado. Você tem que formar gente para atender à demanda
do mercado. Há escolas em que o importante é formar, empurrar para a
frente, não importa o tanto de alunos que deixou para trás. Isso retira
o poder de pessoas. São jogos políticos, não de solidariedade. O grande
problema da escola atual é que é cômodo ficar dentro de uma forma que
existe há 500 anos. Ela ainda trabalha com conteúdos absolutamente
equivocados. Os meninos têm que passar por sessões de tortura, com
informações sem a mínima importância. Perde-se um tempo danado.
Conheça mais sobre o trabalho de Tião Rocha no Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento:
http://www.cpcd.org.br
Qual é a sua família ideal: aquela formada pelos parentes ou pelos amigos?|0
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