Bate-papo realizado em 16/10/2008 no portal www.promenino.org.br


  Moderador 10:26:28
Bem-vindos ao Bate-papo do portal Pró-menino!


  Moderador 10:26:37
Chat com Tião Rocha

Tião Rocha é educador e foi vencedor do Prêmio Empreendedor Social de 2007. Fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), Tião criou métodos educativos diferentes, como jogos para ensinar alunos com dificuldades de aprendizado em determinadas matérias, aulas debaixo de pés de manga e outras formas alternativas de educação.Neste chat, Tião falará sobre educação e metodologias alternativas de ensino.


  Moderador 16:31:28
Bem-vindos ao bate-papo realizado pelo Portal Pró-Menino. Hoje conversaremos com o educador Tião Rocha.


  Moderador 16:59:28
Lembramos a todos que as perguntas são enviadas primeiramente ao moderador, que as encaminha por ordem de chegada ao entrevistado. Por isso, demora um tempo até que cada pergunta seja respondida. Uma boa entrevista!


  Moderador 17:00:13
Boa tarde Tião Rocha, boa tarde a todos, vamos começar a conversa!


  Moderador 17:00:33
Mensagem de Maria Antonieta pelo Fale Conosco: Tião, temos acompanhado sua trajetória e muitas das atividades são aplicadas na instituição Grupo TUMM (Todos Unidos Mudaremos o Mundo), em Mococa, São Paulo, nos núcleos de atendimento e nos espaços de vivência das crianças e adolescentes. Com isso, encontramos muita resistência das outras instituições, de algumas escolas e até mesmo do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), que acha que `acariciamos` demais as crianças, permitindo o aprendizado prazeroso. Gostaria que também dividisse conosco suas dificuldades encontradas nesse tipo de trabalho.


  Moderador 17:02:51
Portal diz: Mensagem enviada por Fernando Carriço pelo Fale Conosco: Tião, como você analisa a avaliação meramente quantitativa de projetos sociais voltados para criança e patrocinados por empresas privadas? Um abraço


  Tião Rocha 17:03:08
Maria, sempre tive a mesma dificuldade, porque a criança ela virou refém das instituições e levou um carimbo e propriedade seja das escolas, quando não somente um número. não interessa para a maioria das instituições e programas, pensar a criança como uma pessoa, ser humano individual, faz parte de um pacote. tudo que diz respeito à formação integral da pessoa, que envolve afeto, cuidado, prazer, alegria, felicidade, valores humanos não fazem parte da pauta das discussões...


  Moderador 17:05:31
Gustavo Brandão - SP diz: Tião, não sou educador mas venho trabalhando em alguns projetos ligados a arte e educação, onde meu foco se vincula mais a arte... Uma dúvida, não consigo entrender direito conceitos de educação e escolarização... As duas coisas não caminham juntas? Ou pelo menos não era pra caminharem juntas?


  Tião Rocha 17:05:36
Ficam só preocupados em cumprir determinadas metas...


  Tião Rocha 17:05:43
Fernando, acho que isso é como você engarrafar a água do mar, quando se faz isso, vai ver no final elas são iguais, não importa de onde se buscou a água. Na realidade os programas sociais e avaliações deveriam engarrafar o azul das ondas, o qualitativo... quando não se consegue mesclar, fica apenas o número, que não alimenta, não inspira, não traz conteúdos. E acho que esse é o grande desafio para a gente poder pensar o tempo da aprendizagem de um programa educacional que não pode ser medido por quilos, toneladas, mas pela qualidade, pelo tempo e ritmo da aprendizagem, desenvolvimento, mudança de atitude das crianças


  Moderador 17:08:19
Rochinha diz: Caro Tião. Sou professor universitário e sinto uma enorme tristeza. Sabemos que o ensino fundamental é um dos bens mais preciosos que temos. No entanto, eles são os que menos recebem e os que deveriam ser melhor preparados. Na sua opinião, por que os professores são tão desvalorizados no Brasil? Como melhorar essa situação?


  Tião Rocha 17:08:20
Gustavo, são coisas diferentes. Educação é um fim em nossas vidas. Estamos vivendo para sermos felizes, livres, educados e ser saúde. Ser educado é um fim pois envolve aprendizado sempre. Escolarização é aquilo que se vive na escola, uma parte da aprendizagem. Educação vai além da escola, e não pode ficar circunscrito. Educação ocorre na rua, no shopping, supermercado... a escolarização é um meio para aprender a se comunicar, se desenvolver, aprender habilidades específicas.


  Tião Rocha 17:08:30
Outra questão é que elas deveriam caminhar juntas. A escola deveria pensar que além de instrução mecânica pragmática, para atender demandas de mercado, deveria aproveitar o espaço para gerar outras formas de aprendizado, que não dependem de coisas relacionadas ao mercado, mas à vida. Não podemos tratar como coisas diferentes


  Moderador 17:09:37
Antonio Curuz diz: Tiao Rocha, boa tarde. Gostaria de saber como as crianças podem estudar e aprender adequadamente embaixo de uma árvore?


  Tião Rocha 17:11:49
Rochinha, esse tem sido um processo infelizmente que foi detonado nesse país e acelerado com o período da ditadura, que teve esse papel, ou seja, quanto menos pessoas pensarem e puderem reagir, com personalidades, mais acessíveis e sujeitas a manipulação de governos autoritários. Estado intervencionista que fez a escola publica, uma linha ditatorial, a lógica era obrigado a estudar educação moral e cívica, era uma ordem, que existe uma ideologia que está acima dos professores e eles começaram a perder sua liberdade de construir os próprios programas. Eles pegam programas prontos, mas o livro que tem que ser usado, o esquema, alguém que pensou por ele, e é simplesmente repassador de modelo, repetidor. Essas pessoas tem muito pouco valor e são mal remuneradas, se exige pouco dela. Esse processo de achatamento da função do educador para ser mero repassador de informação, está ligado à qualidade da remuneração. Por isso a desvalorização infelizmente é uma situação que temos, mas isso criou por outro lado um comodismo... que boa parte desses professores acha que é isso, e que não precisam trabalhar muito mesmo, sem cobrança...


  Moderador 17:12:24
Anete Belnette diz: Tião, o prêmio Empreendedor Social que ganhou no ano passado mudou alguma coisa nas suas atividades? Como isso tem impactado seus trabalhos?


  Tião Rocha 17:14:10
Antonio, é muito simples, não importa o lugar. No meu caso, começou debaixo de uma árvore, e ficou simbólico, pode ser numa árvore, no fundo da garagem, na praia, em qualquer lugar, porque aprendizagem tem a ver com a relação das pessoas e como elas se organizam para poder aprender. Não requer necessidade de equipamentos, salas, isso é um equivoco. Aprendizagem depende de pessoas. Para que haja educação, é necessário no mínimo duas pessoas, e é plural entre eles. O lugar e onde importa pouco, algumas coisas precisa de apoio, mas não é obrigatório. O contrário não implica que precisa sair da sala e colocar 40 meninos na fila, repassar muitas informações e ele tem que aprender porque é obrigado, então fica uma ficção. A escola finge que ensina, finge que aprende o estado finge que paga, e ficamos fingindo que possuímos cidadania


  Moderador 17:15:28
Washignton Rodriuges1 diz: Tião, um abraço da Fabriqueta de Software de Araçuaí­ MG

Martinha diz: boa tarde...Gostaria de saber, se é possivel detectar onde iniciou este desrespeito existente hoje entre os alunos e professores e como poderiamos mudar esta realidade?


  Tião Rocha 17:15:47
Anete, o premio é reconhecimento, não imaginava, não sabia como era o processo, mas eram 350 pessoas, líderes no Brasil que participaram para serem avaliados, e ser reconhecido é muito legal. Traz visibilidade, se estou falando com vocês foi por causa disso, e provavelmente não teria oportunidade. É um grande fator que os promotores deram para empreendedores sociais que pudessem ter ampla divulgação, avaliação...


  Moderador 17:18:28
Madalena diz: Tião, antes de tudo, feliz dia dos professores!! O que acha que os professores simbolicamente gostariam de ganhar nesta data?


  Moderador 17:20:06
Washignton Rodriuges1 diz: Toda a equipe da Fabriqueta de Araçuaí está acompanhando o chat.


  Moderador 17:20:10
Rafael Magioli diz: Tião um abraço da Fabriqueta de Software Araçuaí.


  Tião Rocha 17:20:13
Martinha, acho que o desrespeito veio sempre que se criou as primeiras escolas, a forma autoritária não é de hoje, ela tem sido uma caixa fechada onde há modelos que podem ter 500 anos, ou mais. A vida e a sociedade e a forma de vida mudou. Claro que no período colonial, na republica velha, há escola autoritária, mas tinha um foco, função social muito clara, e era uma relação de serviço militar obrigatório a partir dos 7 anos. Com a democratização, liberdade de imprensa, a sociedade mudou, mas a escola não, continuou no serviço militar. Não importa o que os meninos trazem e ela continua fechada em si mesma do que estar aberta para a diversidade. E assim o conflito é iminente. Hoje há os direitos garantidos a expressão por lei, sociedade produziu o ECA como conquista civilizatória, a escola não respeita opinião do menino. Sair da pedagogia do conflito para pedagogia do confronto, a resolução é a luta de poder, é uma das formas de barbárie. Hoje vemos o grau de violência que é recíproca, não de alunos batem em professor, mas o contrário também. São indicadores de um modelo falido, escola da idade média que precisa ser contemporânea, aberta, plural, e tem que mudar seu jeito de trabalhar, porque se não continua assim. Percebe-se isso em comunidades do Brasil e escolas são pixadas, e a igreja não está pixada, e se pergunta por que? Quando respondermos isso, poderemos mudar. Uma tem sentido, a outra não... se a escola não tomar atitude pedagógica e não chamar a polícia, não vejo resolução a curto prazo...


  Tião Rocha 17:22:47
Madalena, gostariam de ganhar o respeito da sociedade, do estado, e estamos longe disso, mas quem sabe no Brasil a gente vai ter algo que acontece no Japão, onde todos os súditos abaixam a cabeça de forma respeitosa ao imperador e a única categoria profissional que é o contrário é com os professores. Gostaríamos que um dia nossos professores fossem respeitados. Como fazer isso? Não pode ser por decreto, mas por conquista, e o primeiro passo é que cada professor deve pensar que é educador, todos os alunos vão aprender, não pode perder um, não importa se o sistema não quer. Deve querer para todos os 40, 50 alunos e criar pacto para a sala se superar. O dia que tivermos educadores assim, a sociedade vai demonstrar o respeito e voltar a valorizar, recompensar as pessoas...


  Moderador 17:22:51
Gustavo Brandão - SP diz: O que o senhor acha dos métodos avaliativos aplicados na educação formal da criança?


  Tião Rocha 17:23:51
Um abraço para o pessoal de Araçuaí.. que não é para fazer fazer sala de bate papo, mas grupo que produz software, produzem páginas, textos. Tenho orgulho deles, e estão tentando mudar, cidade sustentável...


  Moderador 17:26:45
Anelisa diz: Tião Rocha, sou sua fã! Na sua opinião como a escola deve dialogar com as ONGs?


  Tião Rocha 17:26:46
Gustavo, acho que é perguntar se o menino aprendeu determinados conteúdos, se não aprendeu, não importa por que não aprendeu, ele é jogado no lugar da exclusão, e precisa ser recuperado... há a recuperação, se não consegue ele perde ano, como se fosse ano perdido, é uma lógica inconseqüente, desrespeitosa, pensar que alguém precisa ser recuperado, ninguém perde ano, a vida continua. A lógica é equivocada. Outra questão é que se nosso sistema é preocupado com conteúdos, e boa parte deles são defasados, fica complicado, pois são avaliados por conteúdos que não são importantes, não mudam a vida deles, inclusive o grau de meninos que saem da escola analfabetos, com incapacidade de ler, interpretar, raciocionio lógico, era isso que esperávamos, preparado para ler e escrever bem na sua língua, e ser capaz de um pensamento. Era isso que precisava avaliar, mas só se preocupam com determinadas informações. Então acho que isso tem que ser revisto


  Moderador 17:28:32
Martinha diz: Tião...é uma pena, mas o dever de conselheira me chama...tenha uma boa tarde... e acompanharei a conversa depois no portal pro menino. Obrigada pela oportunidade.


  Moderador 17:29:49
O Professor diz: Olá, sou professor, e queria saber como é seu dia a dia como educador, como são suas aulas, com os alunos?


  Tião Rocha 17:30:02
Anelisa, escola deve dialogar com ONGs como é com todos, com a família, estar de portas abertas, sem se esconder, e colocar suas questões, pontos luminosos, graus de dificuldade, e se preocupar. Se ocupar dessa causa. Aprendi em Moçambique que para educar uma criança é necessária toda uma aldeia, então a escola podia convocar toda aldeia para que possam junto com a escola educar todas as crianças e mudar a lógica, e não dividir, um pedaço da criança numa ONG, outro na escola, isso é uma bobagem. É interessante para teses e projetos, mas do ponto de vista da eficácia, todos os meninos deveriam ser assumidos como filhos de todos, da aldeia, e por razão ética todos devem ser responsáveis, não pode ser excluído e ficar à margem. Esse diálogo deve haver com todos, a escola, igreja. Mas a escola deve querer fazer isso. Como na universidade, que deve sair dos intramuros, e não só produzir teses acadêmicas de pouca valia, pouco retorno. Não só a escola, mas todas elas, inclusive a de terceiro grau, pós-graduação, doutores, a faculdade de medicina, de direito, engenheiros, precisam fazer isso, dialogar para não ficar num mar de ilusão...


  Moderador 17:31:39
Gilberto Melo diz: Boa tarde a todos. Você sabe como tem sido a aplicação da lei que inclui a história da África e da Cultura Afro-brasileira nos currículos?


  Tião Rocha 17:32:50
Professor. Deixei de ser professor há muitos anos, inclusive professor formal há 28 anos, quando pedi demissão na universidade federal de ouro preto, preferi ser educador e a instituição queria que eu fosse professor. A diferença é que professor ensina, e educador aprende, mas eles não queriam isso. Queriam ensinagem, então criei o CPCD, e fizemos daqui um espaço permanente de aprendizagem, e meu trabalho seja com criança, mulher, meninos de rua, é sempre trabalhar a perspectiva da aprendizagem coletiva, a pedagogia da roda, do sabão, pedagogia do brinquedo, que criamos nos 25 anos, nossos instrumentos de gerar espaços de aprendizado. Atualmente no dia a dia pode ser no campo, na cidade, ou nas rodas com meninos, e atender as demandas de dar cursos, palestras, participar de eventos como esse chat, mas sou educador 24 horas por dia, meu tempo todo é dedicado para o CPCD, dedicação total.


  Moderador 17:33:11
Cristóvão diz: OLá, professor Tião! Paz e Luz! Professor, sou docente no ensino fundamental e gostaria de saber como você analisa a questão da inserção do Estatuto da Criança e do Adolescente no ensino fundamental. A LDB prevê isso, mas como está a escola para receber e agir sobre essa questão?


  Tião Rocha 17:34:31
Gilberto, não tenho acompanhado isso na prática, sei da luta, da conquista do movimento negro, das culturas populares, de ocupar espaço oficial dentro do ensino formal, valorizar e reconhecer nossa ancestralidade. Mas na prática não sei como tem sido. Eu temo que esse assunto fique como algo episódica, sobremesa e não como arros e feijão do dia a dia, mas algo ocasional, como foi a aula de artes, dentro do sistema, que não tem uma força efetiva. Imagino que seja assim, porque raramente escuto mudanças de atitudes sobre a lei.


  Moderador 17:35:03
Martinha diz: Tião, quais seriam estes métodos de ensinar com jogos??


  Tião Rocha 17:38:16
A questão do estatuto foi um dos grandes avanços do processo civilizatório brasileiro, um alto nível de pensar a criança como prioridade absoluta. Isso foi uma conquista, a outra luta é que nos anos todos, era tentar sair do desejo e colocar como forma na prática, uma luta que se tem pelas tentativas no Brasil todo, conselhos de direitos, tutelares, que por sua vez não conseguem avançar, tirar o olhar das palavras do estatuto, interpreta-lo, haja visto que se uma escola exclui um menino ou dá bomba nele, deixa eles depois de 4 anos fora do aprendizado, esse sistema não é minimamente questionado pelo conselho. Ele deveria ir na escola e comprometer a direção da escola de não expulsar, excluir por motivos... mas isso acontece. Se entrou como grade curricular, complica, porque vai virar grade, não é para ficar lei, mas sim uma atitude, incorporar no dia a dia essa questão, o respeito supremo À vida e a formação das crianças e adolescentes, essa era a meta do estatuto, não uma lei, mas uma prática... arroz com feijão, a escola tinha que incorporar isso. Temos que ter o respeito e pensar formas inovadores de garantir para todos os meninos a vida digna, como pensam nos filhos da gente, devemos pensar em todos.


  Moderador 17:38:48
Carlos Gonza1 diz: De onde surgiu a vontade, idéia, ou conceito de romper com a padronização do sistema de educação no Brasil? Como se deu tal pensamento?


  Tião Rocha 17:41:13
Martinha, a idéia que desenvolvemos é a pergunta se os meninos podem aprender tudo que precisam no tempo e no ritmo de forma lúdica e prazerosa, como a natureza do ser criança é brincar, pensamos se ele pode aprender brincando, e não deve ser carrancuda, não um castigo. Deve ser o prazer, sem dor, é para ter humor. A idéia de trabalhar com jovens é trabalhar o que os meninos gostam, brincar e fazer do brinquedo um aprendizado. Há 25 anos fizemos isso, aprender brincando de forma lúdica inclusive matérias formais, português, matemática, mas outras coisas, os valores humanos, solidariedade, ética... os meninos fazem o brinquedo uma coisa séria, não devemos desqualificar. Usamos essa lógica e não simplesmente de não ter importância aprender o que é hectômetro, não adianta criar brinquedo um jogo sobre isso. É uma perda de tempo, é tão bobo quanto dar uma aula de decoreba sobre o assunto. É uma atitude diante do processo. Gerar possibilidades para que os meninos aprendam de tudo de forma prazerosa.


  Moderador 17:41:57
Martinha diz: me formo em pedagogia este final de ano, e me pergunto qual seria e melhor forma para realmente desenvolver o papel de educador? - Esta pergunta foi enviada antes de martinha deixar a sala de bate-papo


  Tião Rocha 17:44:49
Carlos, existe na história do Brasil vários momentos de mudança, tentativas de rupturas novos. Temos isso ao longo da história como Anísio Teixeira, um marco de mudança de paradigma, Darcy ribeiro, o conceito de educação, mostrava isso. Há uma série de momentos e pessoas que são referenciais nisso, de paradigmas, novos olhares, o projeto axé na Bahia fala de pedagogia do desejo. Há mais de uma dezena de boas experiências. Paulo freire fez uma ruptura... o problema é que todo sistema da ditadura tentou abafar, e tentaram nivelar por baixo, e aí é um fracasso. O mesmo com outros educadores, construtivismo, quando se coisifica o pensamento, ele perde a eficácia, mas os movimentos são constantes e mostra quanto o sistema educacional é arcaico, a fôrma é muito rígida, mas o formol também deve ser muito bom, uma lógica que ainda era para ser morta, enterrado, mas infelizmente a vida continua, é um exercício de rompimento de buscar caminhos novos, modernização do pensamento.


  Moderador 17:44:58
Raphaela Pires diz: Tião, sou psicóloga e trabalho junto a assistência social... Não seria dever da escola cobrar os pais pela educação dos filhos? Sendo que os mesmos são parte de todo o processo de formação da criança?


  Tião Rocha 17:46:09
Martinha, primeiro fazer com orgulho e assumir o papel de ser educador é ser aprendiz permanente, e não se colocar como dona do saber, repetidora de idéias dos outros. Construa sua pedagogia, seu jeito de levar as pessoas a aprenderem, o melhor método é esse, o educador que cria sua pedagogia, fala com o coração, como verdade, e não cita pé de página ou aspas. Deve buscar isso, e não deixar que o sistema a mude, mas mudar o sistema e assim conseguirá aliados.


  Moderador 17:47:39
Carlos Gonza1 diz: Tião, como é ser uma espécie de norte para outros educadores, ter seus projetos reconhecidos e sendo os mesmos referencia a novos projetos de outros educadores? Como é saber da apropriação e deslocamento de seus conceitos e idéias para outras realidades?


  Tião Rocha 17:48:39
Raphaela, claro! Se fosse sistema de cobrança, era para ter um balcão... enquanto ficam com papeis de reclamações e boletins de ocorrência, o menino está lá e cresce, perde o tempo, o pique. Mais do que cobrar, era que a gente pensasse essa lógica que é necessária toda aldeia para educar criança. Isso significa que cada um de nós como adultos, instituições devemos assumir isso, desde casa, como vizinho, na rua, no ônibus, shopping, igreja. Ao invés de fazer isso... hoje existe um processo de terceirização do destino, são os pais que terceirizam o destino dos filhos e colocam em boas escolas achando que vai ser melhor. A escola terceiriza os meninos e estes a vida. É um equivoco, em vez de formar gente para ser feliz, formamos mão de obra para o mercado


  Moderador 17:49:11
Raphaela Pires diz: Quanto a criança em processo de formação, vejo muitas questões ligadas a displicência dos pais... Mas vejo também certa omissão da escola, preocupando-se apenas com o formal do aluno e se esquecendo de tratar a criança como indivíduo... O Senhor acredita que o ECA na escola trará benefícios a esse quadro?


  Moderador 17:50:07
Pessoal, encerraremos o bate-papo em 10 minutos.


  Tião Rocha 17:53:01
Carlos, primeiro, isso foi uma conseqüente natural do trabalho, não foi pensado, buscado, arquitetado. Minha experiência e a do CPCD, foi um exercício permamente de aprendizado, e assumimos compromisso ético de não cair na vala e queríamos realmente aprender. Não dá para esperar que o sistema, o estado ou alguém venha resolver problemas, e precisava responder e aprender isso para mim. O CPCD propiciou isso para nós, é um exercício da aprendizagem permanente. É possível fazer educação sem escola? Começamos a mudar, de querer mudar a rua. E então dissemos que não é para tirar os meninos da rua, mas mudar ela, pois é o espaço de cidadania, do futebol, festas religiosas, campanhas, ela é o espaço de aprendizado, por que devemos tirar os meninos de lá, e fazer com que as ruas sejam boas, isso muda nosso olhar diante das coisas, e percebemos que viramos referencia, não estamos sozinhos, muita gente pensa assim. Mas ser referencia é bom para juntar mais gente, ampliar o cordão, e cada um vai aprimorando o aprendizado. Não quero ditar regras, repassar modelos, mas acho que se cada um começasse a pensar e fazer perguntas, vemos tantas coisas que ainda não fizemos. Uma pergunta crucial é MDI, de quantas maneiras inovadoras posso educar uma criança? Essa lista não acaba, o repertório não acaba. Podemos levar isso na escala dessa lógica. E fico feliz de deixar essa marca para a o país.


  Moderador 17:53:21
Pessoal, já encerramos o encaminhamento das perguntas.


  Moderador 17:54:11
Jussara R. Phizlat diz: Tião, minha mãe é educadora e pediu pra que eu participasse desse chat. Tenho 14 anos e sempre sonhei ensinar crianças! Que conselhos daria a alguém que queira muito viver da educação em nosso pais? Bjus!


  Tião Rocha 17:54:57
Concordo raphaela, como a terceirização da função, a escola tem um papel, uma função de todos nós. A questão do ECA na escola é se virar mais um instrumento, vamos matar o sentido das coisas, vira uma bobagem. Se pegarmos o sentido, a essência, azul das ondas no ECA, ele é importante que esteja em todos os lugares, nos meios de comunicação, na escola, em todos os lugares.


  Moderador 17:55:47
Daniely diz: olá tião não sei se vc conhece, mais gostaria de saber sua opinião sobre um novo modelo de `educação`, uma escola aberta onde todos /todas poderão escolher sua tarefas e materias mudando o curriculo normal tendo que passar por todas as materias no final da semana.Oque vc pensa sobre esse sistema??.Podemos pensar nessa prática como muito mais interessante para alunos e revulucionaria para mestres ???


  Moderador 17:56:42
Daniely diz: Parabéns pelo seu trabalho


  Tião Rocha 17:57:03
Que bom Jussara! Fico muito feliz, é isso e acredito nisso. Ser educador é um privilegio, exercício permamente de aprendizado com o outro, de sentido de vida, produção de dignidade, e conseguir mundos melhores para todos. Fico feliz vc aos 14 anos querer isso, então comece a praticar, com as suas colegas. Acredito não só como sonho, mas possibilidade. Acho que sou muito honrado e privilegiado por ser educador, e gostaria que todos nós fossemos, ser educador não é profissão, é um estado de ser. É importante a essência do sentido de vida...


  Moderador 17:58:34
Iremos encerrar o bate-papo. Tião Rocha, você tem algo a acrescentar?


  Tião Rocha 17:58:41
Daniely, sim, traz consigo a possibilidade de mudança, do ritmo no seu tempo e construir de forma coletiva, construção de projetos, programas, plataformas, redes de aprendizado, é um dos caminhos que as escolas deveriam ter a ousadia e não ter medo de fazer isso, pois não tem jeito de dar errado. Então essa é uma grande possibilidade e tirar o que há de melhor para que possamos aprender de tudo, e isso é muito legal. Que bom se um dia tivéssemos um sistema essa possibilidade, um profundo respeito aos todos que participam disso..


  Moderador 18:00:18
Pessoal, obrigada pela participação em nosso bate-papo.


  Moderador 18:00:34
Tião muito obrigada pela sua presença no bate-papo do portal Pró-Menino