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Com Frei Chico
e Tião Rocha (pesquisador) amigos e parceiros que contribuiram e
ainda contribuem para o trabalho de Rubinho do Vale
"Santo de Casa não
faz milagres." Será?
Até que ponto, este dito popular, se aplica aos habitantes
do Vale do Jequitinhonha? O que seria daquela região - "uma das
mais pobres do mundo" - se não fossem seus habitantes: lavradores,
canoeiros, vaqueiros, artesãos, lavadeiras, garimpeiros,
cantadores, poetas, rezadeiras, etc.?
Somente eles tem conseguido essa proeza - a de sobreviverem
com dignidade - em meio a exploração avassalo-devastadora das
grande empresa de reflorestamento (?) e à manipulação
político-demagógica das diversas instituições que atuam na
região.
Entretanto, à medida em que estas anunciam, pelo menos nas
estatísticas, os "progressos" e "melhorias da qualidade de vida na
região, o Povo do Jequitinhonha encontra nos seus músicos, poetas
e cantadores, os porta-vozes de suas denúncias e de sua verdadeira
realidade.
Estes artistas, anônimos em sua maioria, se somam aos seus
irmãos - santos milagreiros - do Vale do Jequitinhonha na luta
pela sobrevivência, fazendo de suas músicas e poesias -
espontâneas e funcionais - hinos de louvor à Cultura do Vale, que
luta desigualmente contra os meios de comunicação social,
massificantes e uniformistas e/ou brados de alerta contra a
exploração descomensurada do
Homem-Jequitinhonha.
Neste Universo-Jequitinhonha, nasceu, viveu e aprendeu a
viver Rubinho do Vale.
Sua enorme bagagem cultural - fruto da vivência cotidiana e
familiar, nas roças, feiras e cidades - juntou-se à sua
sensibilidade musical.
Aliado a uma viola afinada, que em sua mão tanto adquire a
forma de uma espada, quanto de uma pomba da paz, Rubinho foi
"correr trecho", soltando sua voz forte, primeiro por todos os
cantos do Vale, para depois cantar em outros "vales" da
vida.
Este disco é, portanto, parte integrante de um processo e
de uma opção de vida.
Todas as músicas aqui registradas, antes de nós, foram
ouvidas-cantadas-discutidas no Vale do Jequitinhonha. Em fazenda e
feiras, em palanques públicos e coretos, Rubinho mostrou e mostra
sempre o seu trabalho. Assim, ele devolve à sua comunidade as suas
cantorias para a crítica e aprovação de seu próprio povo. Aí se dá
o milagre: o santo de casa tem o respaldo de seus irmãos para
anunciar/denunciar, em outros lugares, os valores e coisas do
Povo-Jequitinhonha.
Conhecedor de sua própria terra e pesquisador de sua
própria vida, cantador de seus próprios sofrimentos e alegria,
angústias e sonhos, Rubinho do Vale é, antes de tudo, um "santo de
casa que faz milagre", como tantos outros irmãos seus, essa gente
maravilhosa do Vale do Jequitinhonha. Espero que todos os
ouvintes deste disco precioso, divulguem os "milagres" - em forma
de música - deste "santo de casa" - em forma de cantador.
Estaremos divulgando , não apenas um cantor, mas um porta-voz da
Cultura do Vale do Jequitinhonha.
Sebastião Rocha - Ouro Preto/MG - 1982 - Professor e
Pesquisador - Membro da Comissão Mineira de
Folclore |