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Círculo encantado

Carolina Costa

Antropólogo Tião Rocha valoriza roda de discussões entre educadores e usa brinquedos para tornar aprendizado mais prazeroso  

"Lugar de criança é nas ruas – e nas escolas, praças, igrejas, clubes. Tirar a criança da rua é um grande equívoco; nós é que temos de mudar a rua e transformá-la em um espaço mais generoso, mais acolhedor, em um lugar de convívio e aprendizagem", defende Sebastião Rocha, antropólogo especializado em folclore. Tião, como gosta de ser chamado, é um dos poucos educadores que têm coragem de se responsabilizar pela garantia desse direito que jamais deveria ser negado às crianças: a liberdade de brincar nas ruas.


Opositor radical de qualquer tipo de confinamento, Tião engrossa a corrente de educadores que propõe uma educação sem escola, na qual todos os espaços físicos das cidades – dos centros tumultuados das metrópoles à menor biblioteca rural – apresentam possibilidades de aprendizado. Esse conceito é uma das diretrizes do trabalho que Tião realiza há 19 anos no Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPDC), entidade sem fins lucrativos dirigida por ele, em Curvelo (MG).


Nos primeiros meses de funcionamento da ONG, a prefeitura de Curvelo convidou o educador para assumir o departamento de educação e tornar o CPCD um parceiro institucional. "Me perguntava se era possível fazer educação sem escola", lembra. Após algumas reuniões com professoras da rede municipal, Tião criou o projeto Sementinha. A intenção é fazer "de cada criança um cidadão, de cada comunidade uma escola, de cada casa e rua uma sala de aula e de cada participante na roda um educador". A iniciativa deu tão certo que foi disseminada para 12 cidades brasileiras, em cinco estados (Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Maranhão e Espírito Santo) e duas cidades moçambicanas.


A roda a que se refere Tião constitui uma das três pedagogias que sustentam todas as ações do CPCD. "Iniciamos as atividades do dia sentados em círculo, onde criamos nosso espaço pedagógico. É importante que todo mundo veja todo mundo. Em roda, elaboramos conteúdos, fazemos a pauta do dia e depois avaliamos as ações", afirma. Tião explica que na roda não há eleições e, sim, consensos: "Se temos dez propostas, relacionamos todas elas e vamos trabalhando em ordem de prioridade." Hoje, a grande roda do CPCD tem 30 técnicos e profissionais em Curvelo, e outros 450 educadores nos vários projetos espalhados pelo país.


Além da pedagogia da roda, o CPCD criou também a pedagogia do sabão, que prega soluções caseiras para problemas comunitários. O termo surgiu quando uma das professoras, ao reclamar da falta de materiais na escola, percebeu que vários produtos poderiam ser criados pelos próprios alunos, entre eles sabão. A idéia deu origem à Cooperativa Dedo de Gente, que comercializa trabalhos das fabriquetas – compotas, peças de cerâmica e ferro, jogos e mais de 1.700 objetos criados por comunidades de baixa renda das zonas rurais.


O terceiro pilar do CPCD é a pedagogia do brinquedo. "Educação tem de ser prazerosa. Escola não precisa ser o serviço militar obrigatório aos 7 anos. Pensando nisso, estudamos uma maneira de trabalhar os conteúdos escolares de forma lúdica", argumenta Tião. Esse pensamento originou brinquedos como a damática, um jogo de damas que ajuda a assimilar conceitos de matemática. Sucesso entre professores e alunos, ele integra o Bornal de Jogos, comercializado pela Cooperativa Dedo de Gente. Hoje, adultos e crianças participam de oficinas de confecção e utilização de jogos e já desenvolveram mais de 150 brinquedos, testados e aprovados em escolas públicas de Curvelo e Araçuaí.


Além desses projetos, o CPCD ainda coordena o projeto Livro & Cia. "Partimos da seguinte pergunta: os livros perderam o encantamento ou a escola é que não soube mantê-los encantados?", coloca Tião. "A partir disso, criamos brinquedos e jogos que tornassem a leitura algo mais prazeroso", finaliza.

 




     
   
 

Edição 75  

 

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