Lugar de criança é na rua
04/08/2003 - 15:00 - Editoria

José Júnior

De um tempo pra cá resolvi cair na estrada pra ver experiências culturais, sociais e na área de educação fora dos circuitos tradicionais. Numa dessas viagens desembarquei na cidade de Curvelo, em Minas Gerais, pra conhecer o trabalho desenvolvido pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD). A minha ida a Curvelo começou a ser desenhada em dezembro de 2001, quando estive num encontro organizado pela CARE Brasil, em São Paulo.

Durante o evento, uma das falas que mais me impactaram foi a de um mineiro de jeito exótico que falava com uma legitimidade profunda daquilo que ele dominava. O nome dele era Tião Rocha (segundo ele, Sebastião é o seu apelido). Além de antropólogo por formação e educador por opção, Tião é um grande contador de histórias. Você fica ali hipnotizado, horas ouvindo e, para os mais criativos, vendo as suas experiências pessoais pelo Brasil. Com frases de efeito como: “Lugar de criança é nas ruas – e nas escolas, igrejas, clubes. Tirar as crianças da rua é grande equívoco.”

O nosso reencontro aconteceu um ano e sete meses depois. Eu, com o filme queimadaço pelos inúmeros agendamentos seguidos de cancelamentos, quase virei mais uma história que poderia ser narrada pelo Tião. Não vou ficar aqui falando dos inúmeros projetos sociais desenvolvidos pelo CPCD. Quem quiser saber mais, é só acessar o site www.cpcd.org.br .

Das inúmeras histórias desse mestre do saber e do fazer, teve uma que ele me contou que bateu lá dentro. Foi sobre a maior favela fluvial do mundo, que fica na cidade de Laranjal do Jari. São setenta mil pessoas morando em palafitas (ele usou um termo chamado sociedade anfíbia). Essa cidade fica entre os estados do Amapá e do Pará, dentro da região Amazônica. Tião foi convidado pela Fundação Orsa pra desenvolver um projeto de educação para essa comunidade.

Durante dois anos, ele ficava se dividindo entre Minas e o Jari (nome da favela). Como boa parte dos lugares, lá também existem gangues e os seus rígidos códigos. Eles têm um esporte, que pelo que eu entendi, é uma fusão de esgrima com arena romana, onde utilizam um faca grande e longa chamada terçado. Muitas vezes o derrotado acaba morto.

Tudo começou quando um americano visionário (não sei se para o bem ou para o mau), resolveu criar uma fábrica de celulose no meio da Floresta Amazônica (na época da ditadura). Foi construída uma colônia na região para abrigar americanos e brasileiros que iriam trabalhar na fábrica. Só que a procura como sempre no quesito trabalho é maior do que a oferta, os que não conseguiram alocar-se acabaram na favela. De novo a mesma história?! Essa é uma das experiências narradas pelo Tião.

Nos dias 19 e 20 será a vez de Tião vir para o Rio conhecer o nosso trabalho (e naturalmente contar outras histórias) e discutirmos algumas metodologias como a da roda: todos jogam pra dentro tudo aquilo que acham, sentem e discutem de igual pra igual entre coordenadores, educadores e os jovens. Todas as vezes que o grupo ou uma pessoa (seja quem for) enxerga um problema, é convocada uma roda. Já entramos em contagem regressiva!

 

O Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento - CPCD é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1984, em Belo Horizonte/MG, com a seguinte missão: promover educação popular e o desenvolvimento comunitário a partir da cultura, tomada como matéria-prima de ação institucional e pedagógica. Para cumprir esta missão, o CPCD vem desenvolvendo projetos que já se tornaram referência de qualidade, exemplo de desenvolvimento sustentado e alternativa eficaz na implementação de políticas públicas e sociais.

Iniciados em Curvelo, vários projetos do CPCD foram implantados em outras regiões de Minas Gerais (Vale do São Francisco e Vale do Jequitinhonha, Baixo São Francisco e Vale do Rio Doce), disseminados para outros estados (Espírito Santo, Bahia e Maranhão) e países (Moçambique e Guiné Bissau). A razão do êxito das ações do CPCD está apoiada no trinômio: 1) metodologia inovadora 2) formação de educadores 3) participação comunitária.

Metodologia: A convicção de que "educação é algo que só ocorre no plural" e que "desenvolvimento é geração de oportunidades" forneceu a base para formulação das ações metodológicas dos nossos projetos - a pedagogia da roda, a pedagogia do brinquedo e a pedagogia do sabão: - busca sistemática de formas criativas e inovadoras de educação e de desenvolvimento sustentado; - utilização dos saberes e fazeres culturais dos participantes como matéria-prima de nossas ações pedagógicas; - diálogo como princípio de pluralidade e gerador de novas práticas educativas e de desenvolvimento.

Formação: A certeza de que só a existência de educadores comprometidos e bem formados é condição essencial para o êxito de nossos projetos e levou o CPCD a investir seus esforços, energias e recursos na capacitação destes profissionais: provocadores de mudanças, criadores de oportunidades, construtores de cidadania e promotores de generosidade.

Participação: Criança, adolescente, adulto - homens e mulheres - participantes, não como meros beneficiários ou objetos de nosso interesse, mas sujeitos e parceiros de todos os processos e etapas dos projetos, possibilitaram o enraizamento das propostas, a apropriação de novos conhecimentos, a geração de novas tecnologias e a formulação de indicadores de qualidade. O resultado desta soma (missão + metodologia + formação + participação) são os nossos projetos sociais: Agentes Comunitários de Educação, Agentes Comunitários de Saúde, Bornal de Jogos, Fabriquetas, Polícia Solidária, Sementinha e Ser Criança.

* Atualização Agenda (Texto / Tratamento Fotos): Christine Keller


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