12/01/2004 - A pedagogia da roda
Tião Rocha
Estar na roda é o primeiro passo de nosso trabalho. E isto
começou há muitos anos. Precisamente em 1984, na cidade de
Curvelo/MG, “a capital de minha literatura”, como dizia
Guimarães Rosa.
Naquela oportunidade, eu estava trabalhando com as 35
escolas municipais, a maioria situada na zona rural. Nos
primeiros dois meses, a única coisa que recebia delas eram
listas contendo suas necessidades materiais. Em geral, faltava
tudo: livros, cadernos, giz, comida, material de limpeza,
carteira, água, material de apoio. E a rotina até então no
Departamento de Educação era carimbar estas listas e
repassá-las para o almoxarifado da prefeitura.Como imaginava
que aquela situação não iria mudar tão cedo, resolvi convocar
os professores para uma conversa.Não sou almoxarife, nem
gerente de supermercado, nem posso ficar dependendo de outros.
Sou educador. E a minha questão é: dá para fazer educação, mas
de boa qualidade, sem escola, já que as escolas nas quais
vocês trabalham não oferecem condições ?
Como um corolário destas, surgiu outra questão, que virou
um mote para um seminário:
- Será que dá para se fazer essa educação - de boa
qualidade - debaixo do pé de manga, já que aqui o que mais tem
são mangueiras?
Nos primeiros minutos, todas ficaram em silêncio. Passado o
susto inicial, algumas começaram a balbuciar: “não sei...”,
“ninguém”
Resolvemos fazer algumas experiências. Não tínhamos outra
alternativa. O jeito seria aprender a aprender.
Um grupo de professoras do pré-escolar resolveu correr o
risco. Naquele momento elas tinham como “programa”,
desenvolver atividades de “coordenação motora” e
“criatividade”. Na prática, isto acontecia assim: pegavam uma
folha mimeografada onde havia um pato desenhado. A tarefa era
fazer os meninos colorir o pato. Em tempo, ah! se algum garoto
quisesse colorir o seu pato de azul, levava logo um bronca:
“já viu pato azul?”. Então todos coloriam o pato de amarelo e
no lugar certinho. Ao final da aula, a professora dependurava
todos os desenhos (iguais) num barbante, o esticava e criava
assim o “varal de criatividade” (einh!?). Bem, algumas
professoras tentaram desenvolver este “conteúdo programático”
literalmente lá debaixo da mangueira. Uma delas deu o seguinte
depoimento:
- “Foi até bom, por causa do calor, lá é mais fresco, mas
seria melhor se a gente pudesse ter umas carteiras e se
pudesse pregar um quadro negro na árvore”. Neste caso, eu
respondia:
- Professora, é melhor a senhora voltar para sua sala, ao
invés de matar a mangueira. Em outras palavras, sem a
infra-estrutura esta professora não conseguia
trabalhar.
Outras professoras também foram com suas folhas
mimeografadas (“o patinho”). Mas vendo que não havia condições
de colori-las na perna ou no chão, resolveram
recolhê-las. Algumas mudaram o dito “conteúdo”. Outras,
poucas, pediram para as crianças fazerem seus “patinhos”, mas
já que não podiam colorir, que usassem o que tinham à sua
volta: folhas, sementes, paus, pedra, terra, etc. E os
resultados foram patinhos, oncinhas, gentinhas, casinhas,
historinhas, etc.
Ao voltar para dar seu depoimento, uma destas professoras
comentou:
- “Engraçado, eu pensei que os meninos fossem virar uma
fumaça lá debaixo da árvore, pois na sala eles só ficam
falando “tia, posso ir no banheiro”, “tia, posso ir lá fora”;
eu pensei, lá fora, eles iam sumir. Aconteceu, porém um
negócio engraçado: eles ficaram mais ligados do que
normalmente. Eu não precisei chamar a atenção, nem gritar.
Eles estavam mais disciplinados do que quando estão na sala...
Parece que havia uma disciplina assim... na cabeça deles...”
- Disciplina como, professora? Provoquei eu.
-“Disciplina...assim...disciplina na cabeça...
intelectual”, conseguiu sintetizar ela depois de algum
tempo.
Foi a oportunidade que eu queria. Peguei um livro, abri e
entreguei para esta professora ler. Ao que ela comentou:
- “Hum, cansei de ler este cara e nunca entendi
nada...hum!..” Era Paulo Freire. E ela leu o seguinte: “...só
há aprendizagem quando há disciplina intelectual, vontade,
interesse...”
- Pronto! Professora, pode devolver o livro!, lhe
disse.
- “Ah, então é isso?! Não sabia!”, concluiu ela.
Naquele momento, descobrimos a “pólvora”: Paulo Freire não
é para ser lido, mas para ser praticado. E o homem se
fez em verbo. E nunca mais deixamos de conjugá-lo e sempre no
presente do indicativo: eu paulofreire, tu paulofreiras, ele
paulofreira, nós paulofreiramos, vós paulofreirais e eles
paulofreiram.
E foi dessa experiência que brotou, como que naturalmente,
os princípios metodológicos de nossa proposta:
- Como praticar Paulo Freire?
- E o mais elementar de seus conceitos, a coluna vertebral
de sua metodologia: ação - reflexão - ação. Como fazer isso ?
Pronto! Acabamos de descobrir (ou reinventar) a roda. A
roda seria o início e o fim de nossos trabalhos. Seria o nosso
jeito de praticar “ação-reflexão-ação”.
O nosso primeiro projeto recebeu o nome de “sementinha ou a
escola debaixo do pé de manga”. E era de fato uma sementinha,
nova, atrevida, teimosa e persistente.
O nosso projeto, antes de ter qualquer objetivo, nasceu com
uma lista de “não-objetivos educacionais[1]”. A nossa
estratégia de trabalho estava definida: se nos policiássemos
para não praticar ou reproduzir tudo o que recusávamos como
prática educativa, que denominamos “não-objetivos”, teríamos
lucro. E assim esta sementinha foi sendo plantada, adubada,
tratada, replantada, aguada...crescendo.
Com o tempo, o andar na contra-mão das práticas educativas
tradicionais, o aprendizado dos erros e a sistematização dos
acertos, nos deu a estrutura metodológica que, em linhas
gerais, pode ser assim delineada:
- O espaço que denominamos “escola” é o bairro onde vivem
os alunos. Os seus “muros ” são os limites do bairro e das
pessoas;
- As “salas de aula”, “laboratórios”, “biblioteca”,
“quadras de esporte” são as sombras das árvores, o alpendre ou
quintal das casas, as praças públicas, etc.
- O “conteúdo programático” desta escola é a cultura
- os saberes, os fazeres e os quereres – produzidos, vividos e
desejados por esta comunidade;
- Os “educadores” são todos os que entrarem na roda, sejam
crianças, pais, educadores, etc.
Na roda todos opinam e sugerem. E todas as opiniões e
sugestões são valorizadas. Não pode haver exclusão de
propostas, nem votação. Há, sim, consenso do grupo e definição
de prioridades. Por isto afirmamos que todos que participam da
roda são educadores, independentes da idade, altura, sexo,
etc.
Assim desenvolveu-se o “Sementinha”: agindo, refletindo,
agindo. Consolidou-se como metodologia e referência
educacionais. Transformou-se em política pública. Serviu de
base para todos os demais projetos educacionais desenvolvidos
pelo CPCD.
A pedagogia da roda do “Sementinha”[2] gerou a pedagogia do
brinquedo do “Ser Criança”[3] [CPCD1] e possibilitou a
pedagogia do sabão das “Fabriquetas”[4]. E é a partir deste
triângulo metodológico que o CPCD atua e pretende cumprir sua
missão institucional, em benefício da população deste país.
Tião Rocha é antropólogo (por formação), educador popular
(por opção) e folclorista (por necessidade). Fundador e
presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento -
CPCD, organização não governamental sem fins lucrativos,
fundada em 1984, em Belo Horizonte/MG
[1] Para conhecer os “não-objetivos”
educacionais, entre no nosso site ou envie-nos um e-mail
solicitando.
[2]Considerado “exemplo de modelo educacional
para os países do 3º Mundo” pela OMEP -Organização Mundial de
Educação Pré-Escolar, no Congresso da Tchecoslováquia,
1987.
[3]Grande vencedor do 1º Prêmio Itaú-Unicef
“Educação & Participação”, em 1995, o 1° lugar entre
406 concorrentes de todo o Brasil, “como a melhor e mais
efetiva contribuição para a escola pública brasileira”.
[4]Responsável pela criação da Cooperativa
“Dedo de Gente” dos produtores artesanais e indústrias
caseiras do centro e norte de Minas Gerais, a 1ª cooperativa
brasileira formada exclusivamente por jovens e mulheres
participantes de fabriquetas comunitárias.
[CPCD1]- Vencedor em 1º lugar do Prêmio
Itaú-Unicef “Educação & Participação”/ 1995, entre 406
concorrentes de todo Brasil, “como a melhor e mais efetiva
contribuição para a escola pública brasileira”.