Tião Rocha: Idéias práticas merecem ser realizadas
Alex Gutenberg
Não adianta. Em todos os cantos do planeta, seja qual for a civilização, existem problemas na educação cuja origem é apenas uma – falta de leitura, ou seja, o excessivo número crianças e jovens analfabetos mesmo estando na escola. Partindo dessa premissa, fica fácil escolher uma solução universal que, embora aparentemente simples, é difícil de ser executada: muita leitura para todos, alfabetização para os alunos com urgência.
O problema no Brasil, por exemplo, é que existem dezenas de bons projetos, planos com ótimas intenções, ONGs realmente interessadas e um novo plano ambicioso para todo o sistema vindo do Governo Federal. Mas o que precisamos mesmo é de gente que execute, que trabalhe, que coloque a mão na massa e desempenhe. É aí que mora a raiz de todos os males.
Por essa razão fomos conversar com o mineiro Sebastião “Tião” Rocha, criador do CPCD – Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, uma organização não governamental totalmente heterodoxa, que busca acima de tudo oferecer educação, alfabetização, leitura, brincadeiras (isso mesmo!) e cidadania aos meninos que mais precisam numa determinada comunidade.
Para que os programas funcionem, Tião e seus educadores criaram ferramentas como a Pedagogia da Roda e o Bornal de Jogos. Seus métodos, digamos, “diferentes”, simplesmente resolvem, pois atingem os jovens carentes de 2 a 14 anos do interior brasileiro.
Para se ter uma idéia sobre os pensamentos de Tião, basta observar que, para ele, a escola (o prédio, a estrutura física) é um “troço” absolutamente dispensável. “A escola, esse monumento à inutilidade, tem o mesmo modelo há 500 anos. Não serve para nada. Ela está doente, todo sistema de ensino nacional está na UTI. As crianças não aprendem, os índices de analfabetismo são altíssimos, por isso precisamos mudar”, diz o antropólogo, que desistiu de lecionar em universidade e criou o CPCD há mais de 20 anos.
Tião Rocha foi eleito o Empreendedor Social 2007, um prêmio de enorme prestígio internacional, que teve 349 candidatos no ano passado. "A vitória de Tião é uma comprovação de que, neste mundo em que queremos tudo instantaneamente, as idéias que inovam só vêm com o tempo. O empreendedor social precisa de muito tempo para fazer a diferença", ressaltou a diretora executiva da Fundação Schwab, Pamela Hartigan, promotora do evento.
"Agora, com o prêmio, aumentam minha responsabilidade e minha fé de que somos capazes de fazer um mundo melhor, por meio de todos esses projetos. E a gente começa a mudar tudo quando pensa em cuidar dos nossos tataranetos", concluiu o educador, sempre inspirado nas palavras de Guimarães Rosa.
Tião é um educador nato, um sujeito extremamente ético, que não mede palavras, mas age, que não gosta do sistema e atua dentro ou fora dele. Se uma prefeitura de determinada cidade resolve não apóia-lo, não importa: Tião adota os meninos em sua ONG, com ajuda dos pais e da comunidade.
Profissão Mestre – O que você acha da educação no Brasil?
Tião Rocha – Estamos falando de educação ou de escolarização? Se falarmos do primeiro, estamos falando de fim e não de meio. Educação para mim é um fim. As pessoas estão aqui nesta terra para viverem com saúde, serem felizes, aprenderem, serem educados. Educação tem a ver com aprendizado permanente. Nesse caso, o sistema no Brasil está doente, na UTI.
PM – Por que está assim tão enferma?
TR – A educação brasileira vive um grande nó. As escolas e o sistema de ensino repelem qualquer mudança, e aí vem a grande dificuldade: a escola já está pronta e não quer mudar. O conteúdo está pronto há muito tempo, há 500 anos. E continua se repetindo. De tempos em tempos aparece uma ou outra adaptação. Por exemplo, o programa de matemática deste ano é o mesmo de 5 anos atrás e será o mesmo daqui a 5 anos. É o mesmo currículo. Acontece a mesma coisa nas outras disciplinas. Esse conteúdo tradicional precisa ser modificado, pois estamos seguindo aquele caminho em que o professor finge que está ensinando e os alunos fingem que estão aprendendo. O resultado é esse: sessenta% de analfabetos entre os meninos de 8 a 17 anos.
PM – Por que você acompanha essas pesquisas?
TR – Outro dia eu estava olhando uns dados oficiais da situação em Minas Gerais. A avaliação do ano passado mostrou que apenas 3,3% dos alunos atingiram o nível de suficiência, o que significa que 96,7% não têm a menor idéia do que estão fazendo na escola. E, para dizer a verdade, esse quadro serve para MG e para o Brasil. São 96,7% de insuficiência critica. Esse é um problema sério de estrutura nas escolas. Uma instituição, qualquer empresa, que depois de 8 anos produza resultados ruins como esse, estará falida.
PM – É possível encontrar uma solução?
TR – O que encontramos de imediato para tentar sanar a educação brasileira foi algo muito fora do tradicional. Criamos a tecnologia da roda. Ela se propõe a ser um espaço permanente de aprendizado e pode ser implantada em qualquer lugar, a fim de que todos aprendam juntos, pois ninguém é dono da verdade.
PM – Como funciona a “roda”?
TR – Simples. Faz-se uma pauta, define-se um assunto que precisa ser resolvido, seja ele da comunidade, da classe de aula, entre os professores. Em seguida, senta todo mundo em círculo, forma-se a roda, resolve-se ali. Na roda, uns aprendem com os outros. É uma coisa tão elementar, tão elementar, que incomoda. Não precisa de supervisor, de hierarquia, de construção de prédio. Precisa simplesmente de gente fazendo. Precisa de gente sentada, um olhando para a cara do outro.
PM – E funciona em qualquer lugar?
TR – Quando você chega na escola numa cidade pequenina – “São José do Cabrobó”, por exemplo –, se uma criança não consegue aprender nada por lá, a culpa em geral é de quem não aprendeu e não da escola. O sistema é inatingível. Ninguém quer mexer no currículo. Posso até ilustrar. O sistema oferece sete aulas de gramática por semana e nenhuma de poesia. Como você quer que os meninos aprendam?
PM – Aponte outros defeitos graves.
TR – Um outro problema, um nó danado, é a busca pelo mercado de trabalho. O que é a escola? Hoje, ela é um aparelho ideológico do mercado. Já foi um “mercado” do Estado no período da ditadura. Os interventores determinavam o que as pessoas deveriam estudar. O instrumento da ditadura obrigava os meninos a aprenderem Educação Moral e Cívica ou Organização Social e Política do Brasil. Essa fase rompeu. A escola passou a ser determinada de acordo com a vontade do mercado. Tem uma parte do mercado que é responsável, que tem responsabilidade social, que está querendo ver o desenvolvimento auto- sustentável do país e da Terra. Esse mercado não consegue gente formada para ele. É o que acontece com o exame do Pisa, que pega os meninos de 15 anos para avaliar a leitura e a matemática. Querem ver se eles estão preparados para esse mercado, ético, transparente, legal e honesto.
PM – O Brasil vai mal nesses testes...
TR – Claro que vai mal. O Brasil está na rabeira nesse exame porque o que é ensinado aqui vem de outro mercado, aquele no qual vale vencer mais rapidamente. Os meninos ficam contaminados na escola, com o objetivo de ganhar dinheiro, ficar rico, isto é, arrumar emprego e fortuna, não importa de que forma. As escolas procuram formar em alta produção para os tipos que querem títulos e oportunidades.
PM – Os resultados disso tudo são os piores possíveis, não?
TR – A conclusão é óbvia. Entre todas as pessoas que estiveram envolvidas em corrupção e desvio do erário nos últimos anos no Brasil, 99% possuem nível universitário. Eles são doutores, fizeram MBA. A proposta de nossa escola doentia leva a cidadãos desse quilate.
PM – De novo, qual a solução?
TR – Pense bem, precisamos de formação para quê? Gente esperta ou gente ética? Gente honesta ou que vai aprender a enganar o outro? Gente que quer vencer a qualquer custo ou de forma solidária? Vamos fazer isso contaminando o planeta ou trabalhar respeitando o planeta? Nós vamos crescer e enriquecer, ou vamos nos desenvolver? Hoje a lógica que determina o mercado é: todo mundo quer crescer, não importa como. Esse modelo de escolarização deve estar atendendo esse tipo de gente. Nós estamos pagando um preço – está nas manchetes dos jornais todos os dias.
PM – E na prática?
TR –Tem que aprender com o outro, na convivência, na troca, no intercâmbio. Essa é uma idéia que deve ser associada ao local – todo espaço tem que ser espaço de aprendizagem. A minha grande discussão com as instituições que fazem esse discurso demagógico é que elas dizem “vamos tirar os meninos da rua!”, “vamos levar os meninos para a escola”. Quando eu falo da rua o povo reclama. Mas a rua é o lugar onde a gente comemora o título do time, a procissão, o carnaval, a passeata pelos direitos humanos, a legalidade. A rua é boa.
PM – A escola, como prédio e instituição, está morta, então?
TR – Não é bem assim. Por que não transformamos a escola em espaço permanente de aprendizado? Nós precisamos ter esse local para o aluno. Não é aprender o dia inteiro com os professores, seguir o currículo. Os estudantes precisam de um espaço alternativo. Precisam de educação integral. Precisam aprender de tudo, o dia inteiro. São mudanças difíceis. Tem alguma coisa relacionada a continuísmo na escola, que ninguém quer mexer. Quem controla isso é uma academia, a qual só interessa o mesmo de sempre. Esses poderosos que mantêm os mecanismos de controle da Educação resolvem apenas pela manutenção do que vai ser visto no ano letivo, quais os livros, o que será dado como matéria. Esse sistema é frágil porque não forma cidadãos, mas é forte por causa da sua autoridade e permanência.
PM – E os programas do CPCD?
TR – A pedagogia da roda é fundamental. Ela serve para as escolas e também para as comunidades. É uma forma de os meninos se ocuparem o dia inteiro. E ainda tem o Bornal de Jogos – que é um sistema inusitado, prático e extremamente eficiente para ensinar as crianças que ficam para trás nos estudos. São mais de 80 jogos que podem ser utilizados por professores de qualquer disciplina para ajudar os alunos mais fracos. Em Araçauí também temos dois programas inéditos – “Meu Lugar é Aqui” e o “Cuidando dos Tataranetos”.
PM – Como funcionam?
TR – O primeiro é como é que se constrói uma cidade para ser sustentável, para que as pessoas permaneçam nela. O Vale do Jequitinhonha, onde fica Araçauí, é o maior exportador de cortadores de cana do Brasil. Oitenta mil pessoas por ano vão para o interior de São Paulo. Isso não pode acontecer. Os homens deixam a cidade em março/abril e voltam em novembro. As comunidades ficam apenas com mulheres, velhos, crianças e gente doente. Deixa um passivo social terrível. E no caso de preparar a terra para os tataranetos, foi criada uma roda imaginária, mas muito sólida, baseada em cultura, trabalho, habitação, água, alimento, energia e educação.
PM – que na prática significa...
TR – Criar alternativas e condições para sobrevivência local. Trabalhamos com a permacultura, e os meninos seguem os projetos do CPCD, Sementinha, Ser Criança e as fabriquetas, que ajudam os adolescentes. O objetivo é o desafio de não perder ninguém por causa do corte da cana. Queremos criar cidadãos, com consciência, noções de trabalho, de futuro, para que eles possam viver com dignidade.