Projeto didático criado por antropólogo e usado em escolas e ONGs de vários Estados e em Angola e Moçambique é um recurso que enriquece as aulas de matemática, português, história e geografia e vem trazendo bons resultados entre crianças de 4 a 14 anos, além de ser divertido
Simone Iwasso escreve para ‘O Estado de SP’:
Diemilson não aprendia matemática, mas ganhava de todos no jogo de damas. Tinha 11 anos, estava na 1.ª série e não conseguia fazer as lições de casa. Até que um dia levou tudo pronto, sem erros e foi repreendido pela professora - ela desconfiou que ele tinha copiado os resultados de um colega.
O garoto finalmente tinha aprendido a somar, dividir, multiplicar e subtrair. Isso graças a uma invenção batizada de ‘damática’: um tabuleiro de damas com números espalhados pelas casas e sinais das operações matemáticas nas peças. Para cada jogada, uma conta teria de ser resolvida.
A história se passou há nove anos, em Curvelo, no interior de Minas, e foi a semente de um projeto que se multiplicou e hoje é usado em escolas e ONGs de Minas, Bahia, Maranhão, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e SP, além de Angola e Moçambique.
Batizado de Bornal de Jogos, o projeto reúne 360 brincadeiras populares transformadas em material didático, para ser usado em sala de aula com crianças de 4 a 14 anos. O objetivo é oferecer mais um recurso para professores ensinarem disciplinas como matemática, português, história e geografia.
A idéia veio da imaginação do educador Tião Rocha, de 54 anos, um antropólogo especializado em folclore que abandonou a carreira na Universidade Federal de Ouro Preto para fundar o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), uma organização não-governamental dedicada a disseminar metodologias de ensino baseadas nas tradições populares.
Hoje, o CPCD está sediado em Curvelo e Belo Horizonte e oferece em seu site (http://www.cpcd.org.br) jogos e instruções para pais e professores interessados na proposta.
‘Tudo começou com esse garoto. Pensávamos que, se conseguia jogar os jogos, ele tinha uma boa noção espacial, mas não desenvolvia a noção aritmética.
Pegamos o tabuleiro de damas e adaptamos. Num instante, ele resolveu a vida dele. Depois começamos a usar outros jogos e o gratificante é ver que isso se transformou em política pública em alguns lugares’, diz.
A criação faz parte do trabalho desenvolvido há mais de 20 anos por Tião, que associa o conteúdo escolar tradicional ao universo lúdico infantil.
‘A escola tem de deixar de ser um lugar carrancudo, que não estimula o aluno. E o professor, antes de culpar a televisão, a falta de materiais e a sociedade, deve tentar alternativas para ensinar’, completa.
Professores e alunos são livres para criar os próprios jogos, baseados nas necessidades de cada turma. A aplicação, afirmam, melhora o rendimento do aluno, a assimilação dos conteúdos e a sociabilidade na classe.
‘Os jogos põem professores e alunos em pé de igualdade, de maneira prazerosa. E, a partir disso, as crianças aprendem naturalmente, sem sentir medo de errar, sem achar chato e obrigatório’, conta a educadora Silmara Soares, de 32 anos, que aplica o método em Curvelo.
A aluna Tatiana Cunha, de 14, também de Curvelo, aprova a brincadeira. ‘É gostoso, porque a classe se senta em roda e todo mundo participa. A gente vai vendo as matérias de outro jeito. Acho legal para treinar português, matemática e até coisas de história. Todo mundo gosta.’
Em Santo André, na Grande SP, os jogos foram adotados no ensino fundamental com o Sementinha, outro projeto de Tião. Em igrejas, salões de festa, praças e clubes, crianças de comunidades carentes se sentam em roda com as educadoras e desenvolvem os próprios jogos e histórias.
‘Percebemos que crianças agressivas, muito caladas ou com problemas de sociabilidade foram mudando de comportamento com os jogos’, conta Ilziana Antonia da Silva, de 27 anos, que coordena cinco núcleos infantis na cidade.
O diferencial, segundo Ilziana, está no fato de as crianças ‘se sentirem atraídas pelo que você propõe, porque é diferente da idéia que elas fazem da escola e da educação.’ Nas palavras de sua aluna Ingrid Kelly, de 5 anos: ‘Gosto de jogar a roleta e brincar’. (O Estado de SP, 20/6)