O antropólogo mineiro Tião Rocha um dia se perguntou: é possível
fazer educação sem escola? Ao descobrir que, empregando metodologias
pedagógicas que utilizavam jogos, brincadeiras e outras atividades
lúdicas, poderia educar crianças e jovens, o antropólogo abandonou a
Universidade Federal de Ouro Preto (MG), onde era professor, e criou
o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) na cidade
mineira de Curvelo. Por meio dele, passou a desenvolver e disseminar
projetos que contribuem para o desenvolvimento comunitário e
auxiliam alunos com dificuldades de aprendizado em várias áreas.
“Assim, consegui ser um bom educador, aquele que aprende, e não só
ensina”, frisou.
O CPCD surgiu em 1984, e tem gerado projetos que foram
implantados em várias cidades de Minas, Bahia, Espírito Santo,
Maranhão, São Paulo e ainda de Moçambique e Angola, na África
portuguesa. O primeiro dos projetos foi o Sementinha, ou
Escola debaixo do pé-de-manga, voltado para crianças de 4 a
6 anos de bairros carentes e não atendidos por creches. O Sementinha
adota a pedagogia da roda, onde o conteúdo de aprendizagem é
construído em círculos. Depois vieram o Ser criança, educando pelo
brinquedo, que adapta jogos conhecidos, como o de damas, e inventa
outros. O Bornal de jogos, que também faz uso de jogos e
brincadeiras, e o Bornal de jogos da paz, que favorece as relações
sociais, que trabalha temas como cidadania, paz, respeito e
sexualidade, também surgiram no centro.
Disseminação - Tião Rocha revela que, quando
implantado, o Ser criança não continha brinquedos, aí as crianças
perguntavam: cadê os brinquedos? A partir dessa indagação, começaram
a produzir muitos jogos e outros objetos lúdicos. O garoto
Diemilson, aluno que estava repetindo pela quarta vez a 1ª série do
ensino fundamental, em uma escola de Curvelo, foi quem primeiro
colaborou para a disseminação do projeto nas escolas. Bom jogador de
damas, tinha dificuldade de fazer operações aritméticas. Tião teve a
idéia de usar o tabuleiro para ensinar matemática a ele.
Desconfiando do bom desempenho do estudante, que levou o exercício
de casa sem erros, a professora de Diemilson, ao saber do segredo,
disse “só acredito vendo”.
Depois de ver a técnica de perto, a professora e a escola
adotaram o sistema, que solucionava operações de soma, subtração e
multiplicação. Assim teve início a entrada dos projetos nas
instituições de ensino. Hoje, são 168 jogos criados nas oficinas
mantidas pelo CPCD, como a Fabriquetas, que cria produtos artesanais
que auxiliam exercícios de linguagem e expressão, lógica e
raciocínio, conhecimentos gerais, ética e solidariedade, entre
outros.
Tecnologias - De acordo com o antropólogo, mais
de 70% do material produzido foi transformado em tecnologia
educacional. Há sete anos, o educador vem desenvolvendo os projetos
na cidade de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, onde assumiu a
secretaria municipal de Educação. Lá, foram aplicadas mais de 70
tecnologias. “Transformamos coisas elementares em mais de 1.700
tecnologias de baixo custo, que podem ser feitas com pessoas da
comunidade urbana e rural e realizadas por meninos brincando”,
declarou Tião Rocha.
A estudante do 3º ano do ensino médio, Narjara Esteves, de 17
anos, que borda, costura e produz artigos como bolsas e cintos na
Fabriqueta de Araçuaí, revela que tinha muita dificuldade em
educação artística na escola, mas que, depois de um ano e meio na
oficina, o limite foi superado. Andréia Fonseca, da mesma idade e
série que sua colega de oficina, descobriu as possibilidades da
terra colorida, tinta da região que está sendo aproveitada em
paredes, cartões, quadros e embalagens, e afirma que está empolgada
com a descoberta. “Ninguém acreditava que a tinta pudesse ser
utilizada para tanta coisa”, diz.
Repórter: Vilany Kehrle