 Emoção gravada

TRAJETÓRIA: A trupe
barbacenense durante apresentação do trabalho com
participação especial de Milton Nascimento (ao centro) -
(Foto PP/Divulgação)
Maria Teresa Leal
REPÓRTER
Poderia ser apenas mais uma
apresentação do aclamado espetáculo “Ser Minas Tão
Gerais", com participação de Milton Nascimento e o grupo
Meninos de Araçuaí. Mas o programa, agendado para o
próximo dia 2 de abril, às 21 horas, no Grande Teatro do
Palácio das Artes, marca o lançamento do DVD de mesmo
nome, dirigido por Éder Santos, comemorativo dos 25 anos
do grupo Ponto de Partida. A trupe de Barbacena vive
momento especial. De Belo Horizonte, segue para a
França, onde se apresenta no Théatre Kursaal, na cidade
francesa de Dunkerque, no dia 21 de abril, e no Théâtre
des Champs Elyseés, dia 24, em Paris. No segundo
semestre, inicia ensaios de um espetáculo inédito. O
show que integra o DVD foi gravado “ao vivo" no Teatro
Central, de Juiz de Fora, no final do ano passado,
envolvendo 143 pessoas, sendo 40 crianças, 15 atores e
equipamentos de última geração. A produtora e atriz
Fátima Jorge diz que a transposição para o vídeo foi
conseqüência do sucesso do espetáculo que nasceu
despretensioso, pré-determinado a apenas três
apresentações, e acabou rodando o Brasil, emocionando do
presidente Lula a artistas como Natália Timberg, Sérgio
Brito e Antônio Grassi. O roteiro parte do princípio
de que em toda cidade mineira há um doido ou, pelo
menos, um sistemático, do qual se contam histórias em
voz baixa na cozinha. Valendo-se desse mote, os atores
do Ponto de Partida criaram os personagens do musical
que narra venturas desses “loucos" que passam a vida
esperando por alguém ou algo inusitado. Na opinião
da diretora Regina Bertola, o DVD traduz um espetáculo
maduro, experimentado, com os atores com muito mais
domínio em cena e o mesmo prazer da primeira
apresentação. Ao final do show, Éder Santos detalhou
imagens, fez closes e gravou entrevistas. Assim, o DVD
contém making of, bastidores, entrevista com Milton
Nascimento e depoimentos de artistas. Para Regina,
que acompanhou todos os detalhes técnicos, a sensação
que vigora é a do dever cumprido. Mas ela também não
desdenha a emoção desencadeada pelo belo resultado.
Ressalta que não se trata de um espetáculo de teatro
filmado, mas sim da transposição para uma nova
linguagem, sem perda da emoção do palco. “Me sinto
entregando um documento histórico, um registro muito
significativo para Minas, que une a figura do Milton
Nascimento à dos Meninos de Araçuaí, com uma herança
cultural que estava restrita ao Vale do Jequitinhonha.
Sem falar nas inserções de poemas do Carlos Drummond de
Andrade", valoriza. A diretora acredita que essa
mescla do anônimo com o mito, da cultura genuína com o
artista sofisticado resume bem o cerne do Ponto de
Partida, sua originalidade e abrangência. Ela se declara
feliz pelas conquistas do grupo que nasceu há 25 anos,
fruto de diversificado projeto cultural, idealizado em
parceria com o marido Ivaneé Bertola (falecido
recentemente). Era início dos anos 80 e eles,
inconformados com o marasmo cultural da Serra da
Mantiqueira (região onde se localiza Barbacena),
decidiram “fazer as coisas acontecerem". Criaram o
projeto “Bar em Cena", do qual participaram Titane,
Gilvan de Oliveira, Saulo Laranjeira, Tavinho Moura,
entre outros músicos que despontavam. Depois, inventaram
o “Roda Viva", ciclo de debates com intelectuais que
permitia reflexão sobre assuntos diversos. E, por fim,
publicaram um Suplemento Cultural, dedicado à
literatura. Foi em meio à essa atmosfera
efervescente que nasceu o Ponto de Partida. Daí a
explicação para que seus espetáculos (cerca de 20) sejam
calcados na obra de importantes autores mineiros como
Guimarães Rosa, Drummond, Bartolomeu Campos de Queiróz,
Adélia Prado..., além de outras criações próprias.
Ao mesmo tempo, o grupo tem o mérito de sempre ter
procurado vincular cultura com desenvolvimento social,
tanto que mereceu prêmio do gênero, em 2003, do
Ministério da Cultura. O Ponto de Partida mantém _
além da parceria com os Meninos de Araçuaí _ a Casa de
Morada dos Meninos, a Bituca, Universidade de Música
Popular, a Casa & Arte Ofício Ponto de Partida e um
projeto de Mobilização Cultural. Na avaliação de
Fátima Jorge, o grupo completa 25 anos tentando levar às
pessoas uma mensagem de celebração à vida; de que, em
meio a tantas impossibilidades e violências, é sempre
possível levar adiante nossos sonhos. Outro segredo
do sucesso do Ponto de Partida, na opinião dela, é a
relação vibrante e visceral dos atores com a companhia.
“Somos uma família, que convive e trabalha dentro de um
conceito de concepção de idéias", resume fátima. O
tema que irá permear o novo espetáculo ainda está sendo
decidido, mas é quase certo que conte histórias
referentes ao ciclo do ouro em Minas.
"Ser
Minas tão Gerais" - DVD. Lançamento 2 de
abril, às 21 horas, no Palácio das Artes. A partir desta
segunda-feira (28 de março), de 10 às 19 horas, o
público poderá trocar um agasalho pelo convite. O
material arrecadado será doado ao projeto Minas
Solidária.
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